domingo, 26 de abril de 2015

"Menas' culpa - e eu me tornei uma mãe relax

Esta semana aconteceu algo que eu nunca na minha vida de mãe imaginei que um dia pudesse acontecer. Estava eu conversando com a minha terapeuta e ela constatando que eu sou uma pessoa cheia de culpas (ah, vá). Maaaaas, eis que no meio da conversa eu soltei algo como "engraçado, mas hoje (HOJE) eu não me sinto mais tão culpada como mãe. Talvez seja esta uma das áreas em que eu me sinta mais bem resolvida."
Gente, juro. Não estou inventando, eu disse isso pra ela. Eu acho mesmo que hoje, com minhas filhas (já) aos sete e quatro anos, me sinto uma mãe bem resolvida (não significa que eu me sinta uma mãe perfeita, vejam bem).
Daí que ontem uma amiga muito querida, a Mari Zanotto, resolve lançar um livro. 

Pausa pra contar uma historinha

O blog da Mari, o Pequeno Guia Prático para Mães Sem Prática, foi o primeiro blog materno que eu conheci, uns sete anos atrás. Já havia lançado o meu havia uns seis meses, mas naquele tempo não existia Facebook, Twitter, essas coisas que nos integram ao universo. Eu não tinha ideia que existiam outros blogs sobre maternidade. Eu criei o meu para dar dicas (me achava super experiente, hahaha) para amigas grávidas ou recém-paridas, porque achei legal o blog de viagem que uma amiga havia criado. Até que um dia uma pessoa que eu não conhecia fez o primeiro comentário aqui no Projetinho e, por meio dela, fui descobrir que existiam outros (bem poucos, especialmente se compararmos com o que isso virou hoje). Ali descobri o Pequeno Guia. Li quase inteiro. A Mari, pra mim, era aquela coisa de pessoa famosa e inatingível, porque ela já tinha um blog com muitos seguidores e tinha um texto absolutamente incrível, inspirador, bem humorado, invejável. 
Eis que comecei a fazer comentários nos textos dela porque eu me identificava demais com o que ela escrevia. E aí um dia ela também veio me visitar por aqui. E passamos a fazer parte de uma pracinha de blogs maternos de gente muito boa. Ninguém ali pra ganhar dinheiro, pra ficar famoso (aliás, tínhamos ali a sensação que existia um mundo paralelo em que a gente poderia falar qualquer coisa, inclusive mal de pessoas da vida real). Eram mães de primeira viagem só tentando dividir com outras mães suas alegrias e angústias da maternidade (e as gracinhas dos filhos, claro), além de achar na internet uma companhia para a solidão que às vezes nos acompanhava. Cada blog com seu perfil, cada mãe do seu jeito, nos tornamos quase parentes virtuais. Acompanhamos todas as etapas dos filhos, as segundas gravidezes, descobrimos afinidades que muitas vezes não tínhamos com nossas próprias amigas reais. E aprendemos. Muito. 
A Mari e eu temos filhos exatamente das mesmas idades, e sempre que ela escrevia algum texto eu ia lá e comentava "juro, eu poderia ter escrito isso". Na verdade eu não poderia, porque ela escreve muito melhor do que eu. Mas o comportamento das nossas crias, nossos sentimentos com relação a diversas fases da maternidade, eram incrivelmente parecidos. Os contatos virtuais se tornaram encontros reais.
Daí vieram as redes sociais, a proliferação dos blogs de mães, novas informações, mais questionamentos, muitas cobranças, muitas reflexões e cuspes na testa. Nesta fase eu e mais quatro blogueiras queridas da nova geração (Pri, Anne, Carol e Camila) montamos o Mamatraca. E ali uma nova enxurrada de discussões, aprendizados e muita, muita troca. Foi graças a esse mundo que a internet me apresentou (aliado à vida prática e os aprendizados na marra, claro) que eu me tornei a mãe que eu sou hoje. Essa pessoa que tem a pachorra de dizer pra terapeuta que não se sente tão culpada como mãe - digo de uma forma geral, não de questões específicas como esquecer da reunião de pais, por exemplo rsrsrs. As alfinetadas que o lado perverso da blogosfera materna passou a trazer nos últimos anos não me afetam mais (aliás, eu diria que parei de ler blogs - até porque grande parte das minhas amigas daquela época também parou de escrever. Criançada tudo cresceu, faz parte). Eu fiz minhas escolhas, trabalhei meus fantasmas, descobri que não existe uma única verdade, revi conceitos e encontrei (quer dizer, acho que encontrei) minha própria fórmula. A qual, obviamente, continuará sempre em constante evolução e revisão. 

Voltando lá para o começo da conversa

Daí que a Mari lançou ontem, finalmente, seu primeiro livro (desde que eu conheci o Pequeno Guia as pessoas - inclusive eu - sempre comentavam nos posts dela que ela deveria escrever um livro). Batizou de Mãe Relax - pequeno guia da maternidade imperfeita. Fui lá ontem prestigiar minha ídola, peguei devidamente seu autógrafo (só não posto aqui a foto porque eu fiquei horrorosa) e, numa sentada só, já li o livro inteirinho. 



E essa minha alma gêmea da maternidade (ou minha doppelgänger, segundo a Mari, que além de tudo ainda usa essas palavras difíceis em alemão) fala no livro justamente o que eu quis dizer pra terapeuta esta semana quando eu falei que hoje eu não me sinto muito culpada como mãe (devo sentir culpa por isso? rsrs). 
Me apropriando do termo usado pela Mari, eu me tornei uma pessoa muito mais relax - apesar de, claro, querer sempre acertar. Me preocupar constantemente é diferente de me culpar constantemente. E isso é um tanto libertador. Claro que esse sentimento só vem com o tempo, quando você está mais experiente (olha eu de novo me achando experiente - quero só ver quando chegar a adolescência) e os filhos já não são o único foco da sua vida. Mas quando eu olho para as minhas meninas e as vejo felizes, saudáveis, educadas e amorosas (a parte das brigas e desobediências eu vou desconsiderar, tá? rsrs), não vejo mais porque me sentir tão culpada. Tenho certeza que eu e meu marido estamos conseguindo passar pra elas todos os valores que são importantes pra gente, porque os vemos refletidos no comportamento delas. E isso, minha gente, não tem preço. 

E aqui um trechinho do livro da Mari, que, como sempre, poderia ser meu:

"Vejo (nesse texto) um pequeno retrato da mãe que eu fui, cheia de expectativas exageradas, certezas baseadas em senso comum e algum grau de delírio sobre maternidade. Hoje, sete anos e mais um filho depois, pouco me interessa o que mudou em mim quando virei mãe. O que me fascina são as mudanças constantes na mãe que eu sou. É perceber que há uma trajetória dentro da maternidade, talvez mais profunda e transformadora que o ato de virar mãe. 
(...)
"Hoje sou uma mãe muito mais tranquila e confortável na própria pele. Para isso foi preciso desconstruir um monte de clichês sobre maternidade nos quais eu tentava, sem sucesso, me encaixar: A mãe perfeita. O instinto materno infalível. A supermulher que dá conta. Meu filho, minha vida. Padecer no paraíso. (...)
Levei anos para desconstruir a mãe idealizada que eu queria ser e começar a abraçar uma mãe de carne e osso muito mais complexa, honesta e ciente das próprias fragilidades e limites. E o caminho é longo, meus filhos ainda têm  7 e 4 anos. Imagina aos 15?"