terça-feira, 12 de novembro de 2013

Essa tal de "sindromização" das crianças

Faz tempo que eu estou pra escrever sobre isso, mas não consegui encontrar um tempo. De qualquer modo, ando me irritando com essa história de "sindromizar" qualquer comportamento das crianças. E nesse tempo a Rosely Sayão escreveu um texto que retrata perfeitamente a impressão que eu tenho sobre esse excesso de medicalização nas crianças e o atual comportamento nas escolas de diagnosticar problemas médicos para todo e qualquer comportamento "não perfeito".

Abaixo o texto da Rosely Sayão que foi publicado esta semana no UOL:


Menino Maluquinho

A mãe de um garoto de nove anos pediu que eu a ouvisse a respeito das dúvidas que ela tem, no momento, sobre como conduzir algumas questões do filho. A história dela vai nos ajudar a refletir sobre como a lógica médica tem transformado nossas vidas e, principalmente, a vida dos mais novos.

O garoto é inteligente e, na escola, produz bem. Suas notas são altas mesmo sem estudar nada em casa ou fazer as lições que a professora envia. A mãe quer que ele estude, faz o possível para que ele faça as lições, mas toda a paciência dela desaparece em minutos e eles terminam, invariavelmente, brigando quando ela se dispõe a acompanhar as tarefas do filho, pressionada que é pela sociedade para que haja assim.

É que o garoto não para e nem presta atenção em nada: fica pulando de uma coisa para outra e, por isso, a tarefa que poderia fazer em minutos se arrasta pelo dia todo. E é assim que ele se comporta na escola. A mãe já foi chamada várias vezes pela professora e coordenadora por causa do comportamento agitado e ruidoso do filho. Da última vez, a escola sugeriu que ela o levasse a um médico, e ela atendeu. Saiu do consultório com um diagnóstico do filho e uma receita nas mãos.

Ficou transtornada porque nunca considerou a possibilidade de o filho ter problemas médicos e foi à casa da mãe para desabafar. E ouviu o que a deixou agoniada. A mãe lhe disse que ela, quando criança, era igual ao filho. Também foi uma criança muito ativa e barulhenta e que deu muito trabalho mas, naquela época, não se costumava pensar que isso era sinal de alguma doença.

Essa mulher é uma executiva de sucesso, disputada no mercado de trabalho e, segundo ela, uma de suas características profissionais que a impulsionou é justamente conseguir fazer bem várias coisas ao mesmo tempo. "Um traço meu, que meu filho parece ter herdado, nele é doença?", perguntou ela.

Pois é: em outras épocas, crianças assim eram celebradas e não diagnosticadas. Quem leu "O Menino Maluquinho" deve lembrar-se de como Ziraldo o descreveu: "...Ele tinha o olho maior do que a barriga, tinha fogo no rabo, tinha vento nos pés, umas pernas enormes (que davam para abraçar o mundo)...".

De lá para cá, cada vez mais as crianças deixam de ser consideradas "crianças impossíveis" por causa de seu comportamento, como era visto o Menino Maluquinho, e passam a ser crianças doentes, portadoras de síndromes dos mais variados tipos e que precisam de tratamento.

O que antes não era considerado problema médico --insônia, tristeza, angústia etc.-- agora são doenças, transtornos, distúrbios, síndromes. A essa maneira de pensar é que chamamos de "Medicalização da Vida", e no mundo todo há movimentos que resistem a esse estilo. Na cidade de São Paulo, por exemplo, há um dia --11 de novembro-- dedicado à luta contra a Medicalização da Educação e da Vida.

Por que a Educação está em destaque? Porque nunca antes vimos tantas crianças diagnosticadas e tratadas, seja por "problemas de aprendizagem" como por características de comportamento.

É bom lembrar que o comportamento das crianças está em sintonia com o mundo em que nasceram, e que a aprendizagem humana é um campo muito complexo e diverso. Diagnósticos e tratamentos têm lidado com muito simplismo tais questões.

Que voltemos a ter mais crianças impossíveis (que, com seu comportamento, alegram a casa, como o Menino Maluquinho) do que crianças consideradas doentes!

6 comentários:

Ana Paula disse...

Roberta fiz a mesma postagem hoje. É mesmo irritante o tanto de síndromes que de repente passaram a ter as crianças.
Eu coloquei também um vídeo que cutuca essa indignação. Beijo!

http://www.youtube.com/watch?v=aA9IwCHSYE8

Juliana disse...

Muito bom Roberta! Venho sempre aqui! Há anos! Agora também tenho um cantinho, vem visitar www.moradademae.blogspot.com . Beijos Juliana

Anônimo disse...

Fico pensando que a nossa geração sofre com tantas pressões, sobretudo, quanto nosso papel de educador e responsável do adulto de amanha. Nossos pais não tinham acesso a tantas informações acerca de traumas, comportamentos, distúrbios e nem por isso, nos tornamos adultos conflituosos em sua essência! Com tanta pressão, confesso que tenho medo de errar como mãe! É uma pena! Bj, Ana Paula

Francine B. disse...

Perfeito perfeito Roberta!
Fico tão feliz quando leio textos como o seu e com exemplos vivos de como as crianças estão sendo "interpretadas" erroneamente.
Trabalhei numa farmácia de um pronto atendimento de saúde e num período curto de um ano pudemos observar como a quantidade de crianças dignosticadas com alguns tipos de disturbio comportamental cresceu absurdamente.
INfelizmente são nossas crianças que pagarão um preço alto. bjo grande

Em Nome dos Pais de Múltiplos disse...

Que bacana seu texto! Para mim, ajudou e muito, a dar nomenclaturas e a conhecer um dia onde se luta contra a essa padronização da criança. Parece que quanto mais se mexe na psicologia das crianças, mais e mais muitos as engessam mentalmente. Queremos crianças sujas de lama, e hei dito! rs Beijinhos

sybelle alheiros disse...

Quanta sabedoria em palavras...
Falou TUDO que eu acho tbm, e não sei traduzir em palavras tão claramente quanto estas aqui.
Roberta, sempre me inspira.
bjs