segunda-feira, 10 de junho de 2013

E a maternidade virou um grande espetáculo




Ilustração: Paola Salibi

A moda agora em algumas maternidades são as festas de nascimento, que acontecem ainda no primeiro dia de vida do bebê. Festa mesmo, com direito a decoração, bufê, garçons, champanhe, projeção de slides, maquiador e cabeleireiro para as mães, muitos convidados e sofisticadas lembrancinhas.

Na verdade, o espetáculo para exibição do rebento começa ainda antes. Por meio de vidros, os avós, tios e amigos assistem a todo o parto (muitas vezes, uma cesariana agendada para que todos possam estar presentes) e acompanham ao vivo o momento sublime em que o médico mostra o bebê a todos os espectadores, antes mesmo de a própria mãe ter acalentado o filho que ela acaba de parir.

Médicos e anestesistas fazem piadas, todos riem, é tudo uma grande festa. Logo o bebê está novamente disponível para visitação pelos vidros do berçário quando todos, menos a mãe, assistem ao seu primeiro banho.

Está mais do que na hora de pararmos um pouco para pensar. Existe algo de errado acontecendo, não acham? Mesmo deixando de lado as bizarrices de algumas pessoas excêntricas, está claro que existe uma inversão de valores nesse processo do nascimento e que muitos pais, especialmente os de primeira viagem, estão se deixando levar por essa indústria tão sedutora.

Não que eu não ache importante celebrar o nascimento, ao contrário. Eu, como a maioria das outras mães, também quis mostrar com orgulho as minhas filhas ao mundo. Assim como faço um grande esforço para não julgar as pessoas, porque eu mesma fiz coisas na primeira gravidez das quais me arrependo profundamente, como deixar a enfermeira ficar chacoalhando e buzinando na minha barriga só para o bebê se mexer e sair uma boa foto no ultrassom 3D. Hoje eu faria tanta coisa de forma diferente!

Mas o fato é que, a cada ano que passa, esse "show business" que está se tornando a maternidade tem tomado uma proporção sem tamanho. O nascimento de um filho é um marco único, mágico, de muito amor e felicidade. Mas não é um espetáculo para a plateia. Antes de qualquer coisa, é um momento de intimidade, de conexão, em especial da mãe com o bebê que ela acaba de gerar. Não é um momento do médico. Nem dos amigos e familiares nem de mais ninguém, além dos pais e do bebê.

Deixemos o espetáculo para depois. Tenho certeza que os bebês, esses pequenos e frágeis seres que precisam de muito aconchego para se adaptarem ao mundo em que acabam de chegar, agradecem.

Esse texto foi publicado hoje na minha coluna do Mamatraca no UOL

7 comentários:

Isabella Estanislau disse...

Lamentável! Não consigo deixar de me chocar com esse tipo de prática. O significado de um momento tão lindo e íntimo sendo banalizado e exposto dessa maneira. Será que esse pais não pensam em como essa exposição pode fazer mal a uma criança em processo de transição útero-mundo? Estou grávida e não canso de me chocar com as atrocidades que ouço na sala de espera do consultório. Outro dia ouvi uma gestante dizer que pediu ao médico uma anestesia geral para ter o filho e que só queria acordar quando tudo tivesse acabado! Felizmente o médico não acatou o pedido!

Anônimo disse...

eu partcularmente nao gosto de festa, nao faria esse tipo de coisa. mas tem muita gente q adora festa, e qq motivo é motivo de festa, tudo vira churrasco, jantar, confraternizacao. aprendi a respeitar as pessoas que gostam de gastar dinheiro com festa e presente. pra muita gente, essa eh a linguagem do amor: festa/presente. eo gosto de ter meus filhos na quietude, mas tem gente q gosta de extravazar a alegria de um filho, e nao eh pq essa pessoa faz festa q o momento de ser magico. tem certas coisas q ta na hora de a gente abrir mao e parar de julgar dizendo q ta errado. nao ta errado, so ta diferente, entende? o choque de realidade vai vir depois, vamos respeitar a alegria alheia! nenhuma mae permite uma festa na maternidade se nap fp=or da vontade dela!!!!

Pati_SB_Carvalho disse...

Apesar de acreditar que as pessoas fazem isso por falta de maturidade, isso é algo ruim demais e deve, sim, ser questionado. Claro que cada um faz o que quer da vida. Mas é o cúmulo. Tudo transforma-se em mercadoria. Até um nascimento é coisificado.

Francine B. disse...

É complicado julgar exatamente por isso que vc falou, todos nós em algum momento fazemos coisas que se pudessemos voltar no tempo faríamos diferente. No entanto, algumas coisas realmente estão passando do limite do bem senso, primeiro acho que são as maternidades que deveriam barrar esse tipo de festa dentro de uma Unidade de Saúde. Mas, tudo gira em torno do dinheiro...
Ótimo post! bjs

Anita Camargo disse...

Concordo em gênero, número e grau. No parto do meu filho só quero eu e meu marido curtindo todos os momentos. A "parentaia" que espere...rsrs

Jorge disse...

Não tiro nenhuma vírgula do seu texto. Concordo contigo. E parece que as pessoas ainda acreditam que o bebê, por não poder falar "não quero", insitem em fazer o que é importante SOMENTE para elas...

Jorge disse...

Não tiro nenhuma vírgula do seu texto. Concordo contigo. E parece que as pessoas ainda acreditam que o bebê, por não poder falar "não quero", insitem em fazer o que é importante SOMENTE para elas...