terça-feira, 20 de novembro de 2012

Mais sobre meninos e meninas

A maternidade tem sido um eterno exercício de reflexão pra mim, em todos os sentidos. Tenho quebrado internamente muitos tabus e preconceitos que carregava com base na minha própria criação e nas informações que fui recebendo ao longo da vida. Dia após dia, me descubro enxergando as coisas de uma forma diferente de como eu pensava antes. Talvez isso se chame informação, talvez amadurecimento. 

Um dos assuntos em que eu passei a prestar bastante atenção nos últimos anos foi o do sexismo na infância, nessa necessidade de separar o tempo todo o que é de menino e o que é de menina - das roupas às brincadeiras, e obviamente os comportamentos. Falei pela primeira vez sobre esse assunto nesse post aqui em 2009 e também posteriormente voltei a discutir o tema no Mamatraca quando fizemos uma semana inteirinha sobre o tema (o conteúdo está aqui). Desde então esse debate tem sido constante em rodas de mães com quem converso. Acredito que a experiência com a diversidade é essencial para a formação do ser humano, e que crianças que têm a possibilidade de brincar sem rótulos têm chance de se tornarem cidadãos e até mesmo profissionais muito mais completos quando adultos.

Tenho insistido muito nisso com as minhas filhas, apesar de permitir que elas gostem e usem o rosa, que exerçam a sua vaidade. E tenho percebido efeitos positivos da minha influência. Um exemplo: tempos atrás, saí com a Luísa pra comprar sapatos. Ela estava praticamente sem nada que servisse, então saímos para escolher uns três pares de uma vez, tanto pra sair como pra usar no dia-a-dia e ir pra escola. Na hora de escolher o tênis, resolvi ir até a seção masculina, apesar de não estar assim discriminada. Encontrei um tênis perfeito: de couro bege, com uma tirinha azul marinho, com fecho de velcro. Macio, prático. Nenhum tênis da "ala das meninas" era tão adequado pra usar na escola. Experimentei no pé da Luísa e ela concordou que era confortável, topou levar. E de fato ela usa aquele tênis pra caramba. 


Dia desses, quando estávamos indo pra escola, comentei com ela: 


-  Filha, esse é de longe o melhor tênis que você tem pra ir à escola, né? Confortável, não desamarra, não aperta...

- É mesmo, mãe. Mas todo mundo na escola fala que é tênis de menino.
- Todo mundo quem, filha?
- Ah, a fulana. E a ciclana. E não sei mais quem. Mas eu não ligo, eu falo pra eles que é de menino e de menina também, e que isso não tem nada a ver. 
- Isso mesmo, filha, quem disse que menina só pode usar coisa rosa? Eu mesma, veja bem, minha cor preferida é o verde. E sou menino, por acaso?
- Mãe, outro dia todo mundo estava escolhendo balões na escola, e o André* escolheu um balão rosa. Todo mundo achou engraçado e riu dele, menos eu. 

Posso dizer que meu coração ficou todo cheio? 



E agora encerro esse post copiando aqui o comentário anônimo que recebi ontem naquele post antigo lá de 2009. Foi escrito agora por um menino de 13 anos, que provavelmente encontrou o post pelo Google. 



Eu tbm concordo com esta matéria. Eu tenho 13 anos e quando era menor eu sempre fui fascinado pelas bonecas das minhas primas, na verdade só gostava delas por um motivo: gostava de pentear o cabelo delas. Eu acho que por que meu tio era cabeleireiro.

Mas hoje em dia não ligo mais para isso, quer dizer, gosto muito que minhas primas brinquem de boneca, acho que por eu não ter sido liberado a isso.
Na escola eu tbm ando mais com meninas, mas tbm tenho amigos meninos. Um deles é alto e não curte tanto brincadeiras tipicas de adolescentes, sabem, o outro é um headbanger.
Já os outros são aqueles retardados de sempre que tiram onda de tudo e não se olham no espelho para ver seus defeitos sabe, por isso não ando com eles.
Então, nem por isso eu sou gay. Não estou namorando no momento, mas beijar é uma coisa que não sai do meu dia-a-dia (em garotas claro).
Então, não se preocupem com seus filhos brincarem de bonecas.


Ah! E recomendo ainda a leitura desse artigo fantástico aqui- "Meu filho é gay e estou bem" 

9 comentários:

Fe Piovezani disse...

Que fofo esse comentário, Rô!
Luísa ama o rosa e se deixar, tudo dela é rosa. Quando saio pra comprar roupas pra ela, sozinha, vario muito entre o azul marinho, que acho lindo, o verde, que também é minha cor preferida, o preto....E pra escola, o tênis dela parece esses de escalada, sabe? Mais grosseiro. Só que é cinza e rosa, e mesmo assim, ela me contou que alguns amigos dizem que o tênis dela é de menino. Converso muito com ela, mas no mesmo sentido que vc faz. Sem dramas. Afinal, concordamos que cada um usa o que quer.
beijo

Dani Balan disse...

Rô, não posso deixar de endossar o coro pela "fofice" desse comentário! Achei de uma sinceridade tocante.
Sabe, ando meio chocada com todo esse sexismo na infância. Nas cidades menores, como a minha, a coisa é exagerada. Aqui todo mundo sabe de todo mundo e isso, acredito, é um dos fatores determinantes para a imposição desses limites do "isso é de menina" e "isso é de menino" pras crianças.
A coisa é tão incisiva que outro dia um coleguinha da Nina não quis nem chegar perto de uma boneca dela. Chegou a dizer que não podia nem olhar para a Barbie porque era coisa de menina e que os pais não iriam gostar nada daquilo. Vi uma apreensão enorme nele!
E nas festas, o que se vê é uma onde de vestidos rosas rodados e pouco short em menina pra brincar no escorrega!
Pena. Muita pena!
Finalizando, volto a dizer que sou sua fã e que tava com saudade dos seus posts.
Bj, amiga!
Dani Balan

Marlla Farias disse...

Sensacional este post e comentário.

Cintya disse...

ADOREI!
Também penso como vc.
E o comentário do menino foi excepcional!
Bjos

Natalie disse...

Aqui também estimulamos o livre brincar. Enzo tem bonecas e bonecos e ama. Cuida, abraça, dorme junto... Acho lindo que seja assim. E acho muito ruim essa cobrança social de termos de dividir meninos e meninas desde sempre, limitando-os. Que bom que você e outras mães estão atentas para isso também. Que essa geração que estamos criando seja léguas melhor que as anteriores! Assim se muda o mundo! ;)

E adorei o comentário!!!! Temos de ouvir mais as crianças, minha gente. Elas sabem o que falam!

bjos

Vi disse...

Me incomoda demais essa separação de menino/menina que já vem desde a barriga. É praticamente impossível comprar roupa sem saber o sexo porque não existem mãos amarelos, verdes, laranjas. Depois que nasce, até as cores das mamadeiras é separada (foi aqui que eu sobre a avente? Adoro!! O copo de transição do LH é laranja néon!!)
Depois chega a fase dos brinquedos com "sexo definido". Meu neném tem um tio chef de cozinha e meu marido cozinha melhor do que ninguém. Mas quem disse que há cozinhas infantis coloridas? Só rosa! A única coisa colorida que achei foi uma churrasqueira.
Não chegaria ao limite de criar um filho "sem sexo" como alguns americanos estão fazendo (parece que o casal Brad e Angelina seriam um dos defensores) mas não queria um filho maxista, daqueles que não pode brincar com uma boneca ou ter uma camisa rosa, mas na sociedade de hoje é quase impossível!
De pensar que minha cor favorita é o azul...

Vi disse...

Kkkk machista! E não maxista. Visão política ainda é cedo para ele! Rs

Renata disse...

Rooo, que fofa a Luísa! Morri de amor por ela não ter rido do amiguinho. Tão gostoso quando a gente sente que esta no caminho certo, né??
Eu tomo o maior cuidado com isso aqui em casa...e pego no pé mesmo com a questão das cores, insisto que menino usa rosa SIM e que todo mundo pode usar qq cor ou brincar com qualquer brinquedo.
Ontem fomos conhecer a escola que eles irão estudar no ano que vem e ao chegarmos, André correu para um monte de carrinhos que estavam no chão e Nana correu para umas bonecas com mamadeirinhas. Chamei os dois e o André falou: "mãe, espera um pouco que eu vou dar um colinho pra essa boneca e já vou". Eu esperei...ele voltou e falou: "tadinha da boneca, a Nana era mamãe e ela não tinha papai, por isso corri la pra dar um colinho". Fofo!!!

beijos, beijos

Carolina disse...

Adorei esse post. O Bruno tem duas primas mais velhas e os três se adoram e brincam muito juntos. E claro que nisso sempre rolam brincadeiras de bonecas e casinha. Nunca deixem que tirassem sarro disso. Sem contar que essas brincaderas podem mostrar como ele lida com as relações familiares. Adoro quando vejo ele empurrando o carrinho de bonecas e ela: eu sou um bom pai. kkkk acho muito fofo!
Quanto ao comentário: SENSACIONAL!

Bjs.