quarta-feira, 20 de junho de 2012

Sobre parto, intervenções e feridas

Falar sobre parto, pra mim, nunca foi uma dificuldade. Afinal, poucas são as parideiras como eu que chegam ao hospital com 7cm de dilatação e têm um bebê duas horas depois. Sim, anestesiada, mas muito bem resolvida com isso. Nunca desejei ter um parto natural sem analgesia. Sempre tive esse assunto meio que como um troféu, algo que eu podia exibir sem culpas.
Mas a gente vai aprendendo com a vida. E se informando. Refletindo. E aí resolve trabalhar com outras três malucas que fazem a gente pensar mais ainda. As discussões que temos são profundas, são sérias, são arrebatadoras. É impossível sair ilesa. É melhor (e às vezes mais dolorido) do que qualquer terapia.
E aquele meu troféu começa a ganhar alguns risquinhos, sabe? Começo a resgatar coisas que eu escondi de mim mesma. E questionar outras que até então nunca haviam sido questionadas.
Na semana passada, depois que gravei esse meu vídeo abrindo o coração falando sobre parto, publicado ontem, fiquei me questionando sobre por que eu nunca havia comentado com ninguém que meu médico usou o fórceps de alívio no parto da Luísa. Se isso é um procedimento normal, feito apenas por quem é muito experiente, e serve para aliviar a saída do bebê, como me foi explicado, por que eu nunca mencionei isso no meu relato de parto? Será que foi porque eu preferia manter aquela imagem de que tudo foi perfeito e, ao assumir para mim mesma que na maternidade o parto foi registrado como fórceps, arranharia essa imagem? E que, no fundo, isso não é tão normal assim? Comecei a pensar muito nisso e percebi que sim. Foi algo que se passou no meu subconsciente.
Mas, mesmo sem falar sobre isso abertamente, eu não deixei que isso se repetisse no parto da Rafaela, e conversei com meu GO. Cheguei a cogitar a possibilidade de mudar de obstetra por conta disso - me senti desrespeitada por não saber que ele usaria esse procedimento que, na minha visão e entendimento hoje, foi totalmente desnecessário. Sim, talvez o esforço da expulsão tivesse que ser maior para que a bebê nascesse, mas tudo estava acontecendo tão rapidamente, tão naturalmente, que eu acho que não teria feito tanta diferença assim. E, vamos combinar, qual é o problema de eu fazer um pouco mais de esforço no momento da expulsão? Para meu real alívio, no caso da Rafa a expulsão foi muito, mas muito rápida, sem qualquer necessidade de usar o tal  "fórceps de alívio". Eu permiti que fosse realizado o procedimento padrão da episiotomia, mas hoje já penso que se um dia eu tivesse um terceiro parto, também brigaria por esta e algumas outras intervenções. 
O fórceps de alívio, diferentemente daquele fórceps alto usado no passado que buscava o bebê lá no alto, é usado quando o couro cabeludo do bebê já está visível na vulva. É um recurso que pode ser útil em casos de sofrimento fetal ou exaustão da mãe, situações em que o bebê já está baixo no canal de parto, quase nascendo, e não se pode perder tempo ou fazer uma cesárea. O fórceps é usado para ajudar a puxar o bebê sem agredi-lo como acontecia antes. Mas, pelo que li posteriormente, em até 5% dos partos vaginais podem exigir a aplicação dessa técnica. Não era o meu caso. Por mais que o médico seja perfeitamente habilitado e experiente para usar essa ferramenta e realmente acredite que está facilitando o processo, eu agora digo "não, obrigada". E digo mais: aquele procedimento não deixou nenhuma marca na minha bebê, mas deixou uma pequena feridinha em mim. Que só agora eu resolvi admitir. E escancarar.
Essa semana sobre parto do Mamatraca está me revirando de ponta cabeça. E tem mais feridinhas que eu vou abordar aqui. Aguardem.

Ah, e muito do que eu tenho pensado sobre esse assunto foi brilhantemente escrito ontem aqui. 

10 comentários:

Ana Paula disse...

Roberta, muito interessante o seu "novo"relato de parto. Acho que com o nível de conhecimento disponível hoje, podemos nos informar, questionar, mas também está se passando algo que considero negativo - não estamos sendo boas o suficiente se não nos enquadrarmos num padrão que vem sendo determinado. O parto normal tem que ser normal, natural, isento de qualquer acessório, senão você não se sente realmente que teve um parto normal... A recente marcha pelo parto domiciliar, que é muito válida, acaba também por colocar um pouco disto, de maneira discreta, subliminar - não basta ser parto normal, tem que ser domiciliar...
Também tive parto normal com analgesia, episiotomia, numa cama hospitalar e hoje também me questiono, mas se tivesse optado por uma casa de parto onde eu pudesse caminhar durante o trabalho de parto...
Informação é ótima mas não deve colocar um peso que incomode.
Beijo

Mamatraca disse...

Ana, esse negócio do fórceps me incomodou antes mesmo de toda essa informação que eu recebi depois. Mesmo sabendo hoje que muitos procedimentos hospitalares são desnecessários, naquela época eu não sabia disso. Mas por algum motivo não gostei do uso do fórceps, mesmo sendo o de alívio. Dentro de mim, ficou a sensação de que aquilo era desnecessário.
Entendo sua colocação, e de certa forma concordo. Porque parece realmente que nunca fizemos algo bom o suficiente. Mas acho que esse movimento vem em prol de um bem maior, de um sistema que precisa ser questionado.
Eu estou descobrindo só agora que o parto é um momento da mãe, e não do médico, mesmo tendo um médico super bacana do seu lado. E nós tendemos a achar que foi o médico que colocou nosso filho no mundo, e não nós mesmas. É isso que estou começando a enxergar, sabe? Talvez uma inversão de valores.

Ana Paula disse...

Sim, esse movimento vem em prol de um bem maior e ele tem que ganhar voz cada vez mais.
Trabalhei durante anos numa famosa maternidade aqui de SP diretamente dentro do centro obstétrico. Romper bolsa era uma intervenção feita até para simplesmente ser cobrado o rompedor na nota... Claro que existem os casos necessários e grande maioria de abusos. Entristecia-me a enganação: a mãe se preparava durante a gestação, hidro, yoga, cursos e tinha a certeza pelo próprio médico que teria parto normal. Mas... as vantagens na agenda do profissional não era compatível. Duas palavras, sofrimento fetal, bastavam para por fim em um sonho e será que havia mesmo o tal sofrimento fetal? Então sim esse movimento é de extrema importância e sem cobranças de sermos "as melhores". Um beijo

Lia disse...

Rô, estou meio out da blogosfera mas vou lá conferir seu vídeo. Parabéns pela sinceridade. Está na hora de todas nós, mulheres, passarmos em revista todas as nossas histórias de parto. Felizmente fui agraciada com uma reflexão profunda que antecedeu meu segundo parto (outras, mais privilegiadas que eu, já estavam plenamente despertas em seus primeiros partos). Eu não mudaria NADA pro terceiro. Claro, coisas do momento, porque sempre somos pessoas diferentes. Mas, felizmente, posso dizer que vivi uma esperiência de parto (e pré-natal) totalmente sem violência. Tudo o que queremos é respeito.

Camila Bandeira disse...

Parabéns pela sinceridade. Partos e relatos de parto à parte, formas de nascer e parir à parte, revela muita maturidade da sua parte, muita sinceridade, muita nobreza em admitir que no seu subconsciente algo ficou escondido. Economizou horas e horas de terapia...rsrsrsrs
Beijos,

Dani disse...

A Ana Paula disse tudo: estou bem cansada dessa história de "se o parto não foi totalmente sem intervenção nenhuma" não serve. Não foi bom, você tem que encontrar alguma coisa de muito ruim nele e sofrer com isso.
Como eu já disse algumas vezes, estamos trocando um senhor pelo outro, mas a escravidão continua.
Beijo

Mamatraca disse...

Dani, também sou totalmente contra essa coisa de ficar enfiando o dedo no olho do outro - seja nas mães que pensam diferente de você, seja nos médicos. Detesto radicalismo, acho que os radicais perdem a razão.
Eu não estou buscando coisas muito ruins no meu parto. Não me senti violentada em nenhum deles. Mas esse lance do fórceps foi sim algo que me incomodou e que por alguma razão eu nunca quis comentar. Não acho que fui enganada porque participei dos procedimentos padrão do hospital. Mas questiono que existe um sistema muito errado de saúde no Brasil, e você sabe disso.
Me assusto com as histórias de desrespeito que escuto - independentemente do tipo de parto.
Não faria um parto domiciliar, mas já não penso mais que quem faz isso é hippie, como eu pensava antes. Entendo essa questão do "empoderamento", porque passei a entender que não é o médico que coloca nosso filho no mundo. Somos nós, mães. O médico está ali para nos apoiar, para nos ajudar e, muitas vezes, salvar vidas. Mas existe sim uma inversão de valores e muita coisa errada nesse sistema. Parece papo de comunista, mas é preciso escancarar esses casos de abuso que vimos para que algum dia isso pare de acontecer no Brasil.

Dani disse...

Ro, tem muita coisa muito errada no sistema de saúde do Brasil, isso é fato.
Me sinto até mal ao dizer, mas não me espantei com nenhuma das histórias de terror que eu li nos comentários do Mamatraca - porque já presenciei muita coisa até pior que aquilo, infelizmente. E acho que a violência velada, em especial na forma da indicação de cesárea por pura conveniência do médico, é ainda mais prejudicial, porque essa é mais difícil de perceber.
Mudar essa realidade é uma necessidade premente, disso eu não tenho a menor dúvida. Tenho me descoberto uma feminista de marca maior, para minha própria surpresa.
Acontece que - e talvez pelo cenário ser tão horroroso a luta tenha que começar desta forma, radical - eu acho que os movimentos pela (vou vomitar mas não consigo achar outra palavra) humanização do parto estão equivocados no método. Em querer incutir não digo culpa, mas peso, nas mulheres que toparam - ou que não toparam, mas passaram - qualquer tipo de intervenção em seus partos. Não estou falando especialmente do seu caso, Ro, por favor. O que acontece é que estes grupos não aceitam/permitem que as mulheres se sintam felizes e satisfeitas com seus partos, a não ser que eles cumpram aquele protocolo de intervenção zero que elas acreditam ser o ideal (e estabeleceram esse padrão de "ideal" a partir de estudos populacionais que não contemplam a exceção, a individualidade).
Talvez essa reação extremista seja necessária mesmo: a situação está tão ruim que exige uma guinada radical para o lado oposto, para que se chegue a um equilíbrio em um segundo momento, como toda revolução.
Acontece que neste caminho, muitos que nada têm com isso saem feridos. E não consigo achar isso justo.
Beijos!

Juliana disse...

Oi Roberta, meu nome é Juliana e tenho um filho de 1 ano e 3 meses.
Sempre leio o seu blog e o site Mamatraca, mas nunca comentei (por timidez e por achar que não tenho algo a contribuir). Essa semana do Mamatraca também mexeu muito comigo e por isso resolvi comentar aqui e lá. Fiquei emocionada vendo os vídeos e também lendo seu texto, não só por me lembrar do meu parto, mas principalmente por encontrar mulheres dispostas a encarar seus partos, refletindo sinceramente sobre tudo e falando sobre isso. O que mais me emocionou foi a postura de alteridade que vocês tomaram (e aqui retomada neste texto). Algo absurdamente raro hoje em dia, infelizmente. Parabéns, parabéns mesmo. E também obrigada, por constituir, ainda que virtualmente, uma rede de apoio, onde mães como eu podem encontrar amparo e informação. Abraços
Juliana

Roberta Lippi disse...

Querida Juliana,
Que felicidade receber esse seu e-mail. Fico muito orgulhosa por termos conseguido passar a mensagem que queríamos nessa semana, que é abordar um assunto tão sério sem julgamentos ou radicalismos. Foi muito difícil pra gente desenhar essa semana. E fico muito feliz por estarmos tentando ajudar algumas pessoas a refletir, a desabafar, a questionar, a se solidarizar, a enxergar quanta coisa errada existe por aí.
E comente sim, sempre. Todo mundo tem a contribuir, mesmo que seja só pra dar uma palavra de carinho como essa sua de hoje.
Beijo grande
Roberta