quarta-feira, 28 de março de 2012

Meu tênis é mais caro que o seu

"Meu tênis é mais caro que o seu" é o título de mais um artigo excelente da Rosely Sayão publicado ontem na Folha de S. Paulo. Fala sobre como os valores do consumo servem para criar preconceitos nos relacionamentos desde a infância.
As comparações já existiam quando eu era adolescente, me lembro bem delas especialmente depois que fui estudar em um colégio particular. Me lembro de eu querer ter aquilo que outros tinham, especialmente algumas coisas de marca. Mas nunca presenciei um colega zombando de outro por ter mais ou melhor.
As coisas hoje estão diferentes. E muito disso vem dos valores e exemplos passados pelos próprios pais. Temos que parar de achar que o que ensinamos é suficiente e que os nossos filhos serão sempre as vítimas. A vigília e o diálogo devem ser constantes. É fundamental dar bom exemplo, mas ainda sim temos que prestar atenção o tempo todo.

Vou reproduzir aqui o artigo para quem não leu, recomendo:

Uma criança é xingada porque não usa a mesma pulseira que as colegas e a outra recebe poucos colegas para a festa de aniversário porque a comemoração não foi feita no buffet da moda. 
Situações como essas, que são apenas exemplos, estão se tornando cada vez mais frequentes na convivência entre os mais novos. 
O consumo valorizado e exagerado que adotamos e os modismos lançados por este mercado estão caindo diretamente sobre os ombros das crianças. Elas estão sem proteção em relação a isso.
até agora, uma significativa quantidade de pais que se preocupam em entender a infância dos filhos estava ocupada com a quantidade de presentes (brinquedos e geringonças tecnológicas) que as crianças ganham.
Os motivos das preocupações que eles tinham até então são legítimos. Quanto mais brinquedos tem uma criança, menos ela brinca. Quanto mais aparelhos com mil e uma utilidades têm as crianças e adolescentes, menos eles conseguem se concentrar no que é preciso (...)
Agora, esses pais e outros que queiram refletir sobre o que se passa com seus filhos quando eles convivem no mundo público (escola, clube, área comum do condomínio) precisam considerar uma outra questão. (...) O imenso valor que estamos dedicando ao consumo tem servido para que os mais novos criem preconceitos e estereótipos que servem para excluir, segregar, desprezar seus pares.
E antes que você pense que seu filho pode ser alvo ou vítima dessa situação, considere principalmente que ele pode ser um agente dela. Sim, o fato de você impedir que seu filho tenha mais do que precisa, que valorize marcas em vez de objetos e que manifeste soberba, por exemplo, hoje já não é mais suficiente para livrar seu filho de julgar os colegas e os outros pelos que eles têm ou deixam de ter. 
Lembre-se que seu filho vive neste mundo que o bombardeia com informações que o direcionam a fazer isso. "Quer ser popular? Compre tal objeto". "Quer ser convidado para todas as festas? Use tal roupa", "Quer ter sucesso? Compre tal carro".
Frases desse tipo repetidas como mantras colam em seu filho. Por isso, você terá de fazer mais por ele. 
Uma boa atitude pode ser a de analisar criticamente as propagandas bonitas, vistosas e bem-humoradas que seduzem seu filho. Com sua ajuda, seu filho pode entender que a única coisa verdadeira nesse tipo de propaganda é o objetivo de vender. Além disso, você pode também expressar a ele, com veemência, sua opinião a respeito de quem usa bens de consumo para julgar o outro. Sinalizar seu posicionamento é uma ótima referência na formação de seu filho.
Finalmente, que tal cultivar, com persistência e cotidianamente, algumas virtudes que podem ajudar seu filho a ser uma pessoa de bem?

22 comentários:

Ana Paula disse...

Excelente você ter trazido este artigo aqui. Uma necessa'ria reflexão para nós pais, especialmente quando a Rosely fala que nosso filho pode ser o agente desta situação...
No início da semana, lia na Veja a nova moda dos intercâmbios para adolescentes, 168 mil reais por um mês...
É, há muito o que refletir.
Beijo

Lia disse...

acho que uma boa maneira de tirar parte desse fardo das costas dos nossos filhos é buscarmos conviver ao máximo com mães de crianças da mesma idade que têm os mesmos valores que nós. Criar uma comunidade de apoio onde a criança se sinta aceita. Aqui nós buscamos casais que criam seus filhos de maneira alinhada (não precisa ser igual) à nossa e aproximar Emília dessas crianças. Festinhas simples, alimentação saudável, pouca televisão, muita leitura, muita brincadeira ao ar livre. Isolar totalmente não dá, até por causa da escola. Mas, enfim, também dá pra usar esse critério na escolha da escola.
à medida que eles crescem, vai ficando mais difícil. Mas também os valores que lhes ensinamos na primeira infância vão ficando mais consolidados.

Sofia disse...

Muito bom texto, obrigada por partilhares.
Eu acho que um bom exemplo e uma relação aberta com muita conversa e compreensão dentro da nossa casa é a chave para educar crianças futuros adultos de bem :)

beijo

Regina disse...

Muito bom esse texto, Roseli Sayao sempre muito pertinente em seus textos.
Hoje em dia em meu consultório tenho lidado com crianças que não sabem lidar com a situação "não tenho tal brinquedo que fulano tem", ai os pais correm para a loja para comprar, como se a criança não pudesse ser diferente, ou ainda não pudesse passar por tal "sofrimento". São pais que criam crianças para ter coisas e não para ser!
É realmente algo preocupante!
abraços
Psicologa Regina
www.psicologaregina.blogspot.com

Loja Primeira Idade gestante e bebê disse...

Lá em casa eu sempre uso a técnica do raciocínio..faço elas entenderem o motivo pelo qual falo SIM OU NÃO...acho que é o caminho correto, árduo, mas eficaz...

Marina disse...

Ro, excelente texto! Não tinha lido. Bom, aqui em casa a gente e bem controlado com consumo. Inclusive fomos criticados por ter dado a Bia no aniversario de 1 ano dela uma bola somente. Não dei por ser barata, ou deixei de dar outra coisa para ela porque seria cara, mas simplesmente porque foi o que julguei adequado naquela hora. Ela adorava bolas, não tinha nenhuma. Não tinha porque eu dar uma bola e alguma outra coisa só porque "uma bola e sacanagem", como nos ouvimos de amigos. Rs
Acho até engraçado.
Realmente, e um exercício diário de perseverança e exemplo. E não e fácil espera ninguém.

Anônimo disse...

Excelente texto sobre um assunto muito pertinente.
Serei mãe pela 1a vez em breve e isso me assusta bastante. Especialmente, pois serei mãe de uma menina e acho que isso as afeta mais diretamente...
Acho que os pais são os grandes culpados nessa história... Vejo mães comprando roupas de marcas para os filhos ainda grávidas. Até os carrinhos tem que ser de tal marca... Já estão incutindo que desde bebês eles TEM que ter certas coisas e apreciar certos logotipos.
Eu acho que até na hora de escolher a escolinha temos que pensar nisso. Pensar quem serão seus amiguinhos e, principalmente, filhos de quem.
Eu realmente farei um grande esforço para que a minha filha esteja fora desse mundo de aparências, mas sei que será uma tarefa muito árdua!!
Tatiana

Tenikey disse...

Muito bom esse artigo, vale a pena ler e refletir.

Sarah disse...

Excelente texto, como sempre a Rosely traz temas pertinentes à discussão. O consumismo está realmente exacerbado sobre nossas crianças. Interessante ela comentar sobre as propagandas, incrível como elas realmente exercem influências negativas apesar de seu objetivo ser mesmo o de vender.
Eu me lembro de quando era adolescente essa ideia do "sou melhor porque tenho tal coisa ou faço tal viagem" já existir, e naquela época isso já me incomodava. O que tento fazer com Bento é proporcionar a ele a convivência com diferentes tipos de família e de cultura, sempre enfatizando que não é possível ter tudo.
bjos

Carol P disse...

Otimo texto. Eh bem verdade que eu tenho medo q isto aconteca com minha filha, mas nunca jamais passou pela minha cabeca que ela poderia nao ser a vitima.

Marina Breithaupt disse...

Adorei o texto da Roseli...muito cheio de verdade as reflexões dela. As crianças recriam o comportamento que têm em volta de si. Se os pais e a familia dá mais valor para ter...do que para ser..já viu,né?

bjos

Paloma, a mãe disse...

Ótimo, como sempre! Por isso, mais do que nunca, sou totralmente contra a publicidade voltada para crianças. Tem que ser proibido mesmo, traz um efeito social nefasto na vida das crianças e adolescentes. Pra que criança tem de saber marca das coisas, meu deus? Que diferença isso faz para elas?
Beijos

Roberta Lippi disse...

Paloma, mas sabe que essa questão das marcas muitas vezes não vem da propaganda, vem dos próprios pais. Lembra quando divulguei aqui um texto bizarro de umas mães que se gabavam porque as filhas adoravam marcas e que uma delas não compraria nem pijama para as filhas na Renner? Crianças de 4, 5 ou 6 anos sabem marca de roupa, de bolsa e de outras coisas se forem estimuladas dentro de casa.
Concordo que a propaganda traz uma influência muito grande, mas tem muitos pais errando feio nesse quesito sem ao mínimo questionar se está certo ou não. E pais, nesse caso, "bem informados", de classe média alta...

Lu Poggi disse...

Ótimo vc. ter aberto essa discussão, Roberta! Tb. sinto que por mais que houvesse essa diferença de classe social na nossa infância era bem diferente de hj. Precisamos olhar isso bem de perto, com muito cuidado!

Dany disse...

Muito pertinente o texto.
Essa semana tb fiz um post sobre consumismo e como lidamos com o tema aqui em casa.
As crianças estão mesmo cada vez mais expostas a propagandas incentivando o consumismo e os pais estão cada vez mais sem noção aprisionando seus filhos em códigos de barra.

Li disse...

Nossa! Concordo muito!
Nós, pais e mães temos que nos preocupar com tudo o que passamos aos nossos filhos. Somos os verdadeiros educadores! Somos os verdadeiros exemplos!

Obrigada por compartilhar o texto com a gente!

Beijos!

Lívia.

Andrea Couto disse...

Otimo texto! Obrigada por compartilhar e quem sabe fazer semear!

Carol Garcia disse...

rô,

compartilhar esse artigo é uma favor pra blogosfera.
eu arrepio só de pensar que pode acontecer em casa, mesmo a gente não estimulando isso.
vejo muitas crianças dando valor demais pra marcas e poderes. triste.

bjocas nas bonecas

Laila disse...

olá Robertha. Tema mto pertinente. Tenho um exemplo negativo da minha infância e que, felizmente, serviu para me fazer mudar de lado e não para me alienar de vez, o que de fato poderia ter acontecido. Minha mãe vacilou mto nesse quesito consumismo. Não estou "apedrejando" ela, claro que houve mtos acertos mas, nessa área deixou mto a desejar. Ela sempre ressaltava marcas e o pior, não comprava. Não tínhamos condições e parece que ela gostava de salientar bastante o que era "melhor" (leia-se de marca), mas que eu não ia ter. Lembro que ela tinha uma colega de trabalho com "marido rico" e com uma filha mais velha que eu. De tempos em tempos eu recebia roupas e sapatos doados por essa colega e minha mãe sempre fazia questão de ressaltar que eram de marca, que eram exclusivas, nunca me fazendo refletir sobre o simples fato de que repassar roupas e brinquedos é mto bacana, independente de marca.

Enfim, serviu para me transformar na pessoa que sou hoje, mais consciente em relação ao consumo (sobretudo na infância) e já mto sabida do que não fazer com meus filhos.

Desculpe se me alonguei.

Coisas de mãe disse...

Muito bom.

Neste fim de semana vou em um aniversario em que a mãe pediu para não darmos presente para criança.

Tenho bastante vontade de fazer isto.



beijos

Pati

Raquel disse...

Roberta, a Rosely Sayão está fazendo um trabalho bem bacana aqui no colégio Objetivo em Sorocaba. Ana Luiza não estuda lá, mas algumas amigas mães contaram que ela "revolucionou" a escola. Tirou o dia de brinquedo, as mochilas ficam na escola, para não haver "desfile" de qual é a mais cara. Todo o material é coletivo, entre outras coisas... Tiveram pais que tiraram o filho pq o status não era mais valorizado.
Uma amiga disse que ficou morrendo de vergonha de algumas mães na primeira reunião...levantaram a voz, tiveram chilique, questionaram a mulher, sem imaginar de quem se tratava...o ó!!!
Muito legal este post...
bjs

Taisa Albini De Assis disse...

O texto é excelente e abre nossos olhos quanto a educação dos filhos...
Faz refletir qual valores estamos passando para nossos filhos...
Existe uma frase que agora não lembro ao certo as palavras.. mas que quer dizer o seguinte:
Falamos e sonhamos sempre com um mundo melhor para os nossos filhos..
Mas estamos deixando filhos melhores para o mundo???
Esse é o caminho na minha opinião.. deixar pessoas melhores para que tenham um futuro melhor!

Bjs...