segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

As super mulheres

Recentemente eu recebi a seguinte demanda de pauta para um freela: era para falar sobre os homens que estão por trás das mulheres poderosas. Era para uma revista sobre mulheres executivas e a ideia era fazer uma matéria semelhante à que sempre vimos por aí com as mulheres por trás dos homens poderosos. Porque, afinal, todo homem poderoso sempre faz questão de ressaltar que só conseguiu chegar onde chegou profissionalmente porque tinha uma mulher dando todo o suporte por trás, cuidando dele, da casa, da família, dos filhos e de toda e qualquer atividade enquanto ele podia se dedicar com afinco ao trabalho.
Pois bem, saí à caça dos maridos das mulheres poderosas pra ver como eles lidavam com essa questão da casa, dos filhos, da família e também da cobrança da sociedade machista em relação a homens casados com mulheres mais bem-sucedidas do que eles.
Falei com um, falei com outro, com outro... e simplesmente vi que não tinha matéria! Ou melhor, não daria para fazer aquela pauta. Sabe por que? Simplesmente porque não existem esses super homens por trás das mulheres poderosas. Aquelas que são hoje presidentes ou altas executivas de grandes empresas continuam fazendo dupla, tripla jornada. São elas que, em meio a todas as responsabilidades e compromissos profissionais, administram a casa, o supermercado, rebolam pra ir às reuniões de pais na escola dos filhos, agendam médico para a família inteira.
Dos homens, elas esperam apenas que sejam compreensivos, companheiros e não as cobrem por sua agenda lotada de compromissos e viagens. Se conseguir um marido assim, bacana, já está ótimo! Os maridos aceitam e apoiam suas posições, mas de uma forma geral não mudam suas vidas para se adaptar a essa realidade.
Fiquei até um pouco revoltada no início, por ver que a sociedade evoluiu muito ainda no quesito carreira para a mulher, mas o papel dentro de casa, como gestora do lar, continua sendo dela. Engraçado que conheço muitas histórias de famílias de classe média ou casais jovens que estão começando a fazer a vida que equilibram bem isso: os maridos são parceiros e ambos dividem as tarefas de casa numa boa. Mas, falando com situações mais díspares em que a mulher é super bem-sucedida, não consegui encontrar nenhum caso assim. Deve haver, evidentemente, mas com certeza é exceção.
A favor dos homens pesa a história: a sociedade é machista, eles foram criados assim e este mundo das mulheres chegando ao poder é ainda muito novo. Eles, ao assumirem esse papel de "primeiro-damo", como brincou um dos meus entrevistados, são fortemente cobrados pela família, amigos e sociedade em geral. Ainda se vê com total estranheza o caso de um homem que tem uma profissão mal remunerada ou então fica em casa cuidando da família enquanto a mulher bem-sucedida vai trabalhar. O que  ficou claro, ao fazer essa reportagem, é que estamos vivendo um período de transição e que ambos os lados estão tendo que se adaptar. Acho inclusive que essa sobrecarga sobre a mulher faz com que muitas delas simplesmente desistam de almejar o topo em suas vidas profissionais. Isso porque nem estou entrando no mérito da maternidade especificamente, porque a relação dessas mulheres com os filhos merece uma discussão à parte.
Em suma, por mais dinheiro e estrutura que você tenha, terá sempre que ser a Mulher Maravilha e exercer tripla jornada.
Eu fiz a matéria, mas ela teve que ganhar uma outra roupagem.
.

17 comentários:

Vi disse...

Pois é Roberta, sinto isso em casa! Casei e passei quase quatro anos estudando para um concurso, enquanto o marido trabalhava e "provia o lar". Quando passei no concurso, engravidei e vim morar no "fim do mundo". O marido deixou o trabalho e veio junto, me acompanhando. E praticamente todos os dias nos perguntam o que ele faz. É dureza. E muitas vezes ele se sente de lado.
Talvez para nós seja mais fácil (ou pelo menos fingimos muito bem) ser "do lar" ou ter tripla jornada, mas para eles...

Ilana disse...

É, Roberta, ainda estamos a anos-luz de poder pensar uma sociedade um pouco menos machista, infelizmente...
Pensei sobre isso na sexta-feira. Vocês fizeram um evento super bacana para parents, mas nenhum pai compareceu. Só as mães.
Aliás, achei muito bacana e adorei te conhecer pessoalmente. Bom sair da frente do computador, né?
Bjos!

Mariana disse...

Oi Roberta, td bem?
Eu sou formada em jornalismo tb q gostaria de tirar uma dúvida com vc... Será que vc poderia me mandar um email para mariana.whitehead@gmail.com ?

Obrigada!
Mariana

Laila disse...

Robertha, vc levantou uma excelente questão. Lá em casa eu ganho mais q o marido e ele trabalha menos horas tb. Portanto, nada mais natural q ele, no tempo livre, faça algumas coisinhas a mais certo?! No começo foi bem difícil, já q ele, filho de mãe "dona de casa q dá tudo na mão" e com mais dois irmãos, tava acostumado àquela rotina de não precisar fazer nada da casa. Mas em pouco tempo ele percebeu q eu ficaria sobrecarregada e se dispôs e entrar nessa parceria, sem q eu pedisse ou sugerisse. E tem dado muito certo! Tenho certeza d q, quando os filhos chegarem, tb vai ser desse jeito, pq é algo natural pra nós.

Agora, q ele se sente mal de ganhar menos, isso é verdade... infelizmente, não deu pra tirar tudo q a sociedade machista "implantou" nele e implanta em todos nós, em diferentes graus.

Beijos!

Anne disse...

Caramba Rô! Outro dia eu entrei nessa paranóia, do quanto é forte a responsabilidade da mulher com relação a qualquer coisa que ela tem, alcança, gerencia... Minha conclusão é que o circo que a gente tem em volta até ajuda, mas não resolve....
No fim do dia, executiva ou não, quem sabe onde está o diabo da pomada?

De. disse...

Muito legal Roberta!
Lá em casa, até hoje eu que tenho o salário maior e normalmente eu que "guio" os gastos e investimentos da família (no caso leia-se eu, namorado e a gata).

Ele, em geral, faz a comida, faz a limpeza pesada da casa e garante que vai ter pão no café da manhã no dia seguinte.

Mas sabe de uma coisa? A sintonia fina, como eu costumo chamar, fica por minha conta. Ou seja, cada coisa no seu lugar, roupas dobradas depois de recolhidas, contas organizadas na pasta de contas...

Acho que as mulheres são melhores nisso mesmo, não é machismo. No fim das contas, acho que cabe a nós garantir que o diabo da pomada vai estar sempre na "gaveta de pomada, que nós designamos para tal".

Não acha?

Beatriz Zogaib disse...

Concordo. Daria meu testemunho, e meu marido também. Porque ele tem uma visão bem interessante sobre tudo isso. Nós mulheres, abraçamos o mundo, mas ainda não há a obrigação do homem em abraçar nosso mundo...
Quero ler a matéria. Manda para mim o link ou a publicação que saiu?
Beijos
Beatriz
www.maedacabecaaospes.com.br
beatriz@maedacabecaaospes.com.br

Anônimo disse...

Roberta, eu acho que grande parte do problema é que nossos maridos foram criados por mulheres superprotetoras... Geralmente mulheres que não trabalhavam e se viravam em 10 para a casa estar sempre funcionando de forma perfeita. Mulheres que não tinham o direito a um dia de preguiça, a pedir uma pizza em plena 3a feira ou a viajar sem o marido.
É por isso que acho que temos que tomar muito cuidado, senão nossos filhos vão ficar com essa mesma visão...
Tatiana

Nine disse...

Roberta, muito legal esse seu texto e evidencia muito bem algo que eu venho observando e pensando desde que me tornei mãe. Quando ainda estava no começo do casamento, sem filhos, parecia que as atividades de casa depois do trabalho eram bem divididas entre nós, mas com o nascimento da minha filha, as coisas mudaram um pouco e eu senti no começo uma cobrança quase silenciosa, mas bem perceptível para que eu fosse a mãe que o meu marido havia tido...uma realidade bem distante da minha. Hj com mais de 2 anos de estrada e muitas e muitas conversas depois estamos nos alinhando melhor na divisão de responsabilidades no lar, pois trabalhar, trabalhamos os dois, com mesma carga de responsabilidade e no mesmo órgão público.
Beijos,
Nine

Coisas de mãe disse...

Meu marido é super pai, super participativo e jura que queria ficar em casa cuidando do jardim, mas acho que ele ficaria de muito mau humor se minha vida fosse sempre cheia de reuniões até tarde, de viagens de negocio interminaveis. Acho que grande parte dos homens está gostando muito de participar mais, de curtir mais, Mas não gostaria muito de abrir mão dos cuidados das mulheres com a casa e com a familia.

Sei la, pensei nisto agora.

beijos

Cristiana Rodrigues disse...

ô minha amiga! Jura que vc achou que ia achar? Olha, esta semana divido com vc o post que estou escrevendo sobre o tema. Pra variar estamos em linha e sintonia :) bjs e saudades

Lia disse...

Rô, chocada. A gente sabe que é assim, mas, né? Nem um casal?

Mãe de Duas disse...

Rô, muito interessante tudo isso, a começar pela pauta. Se houve a demanda, era porque acreditava-se que isso existia. Como vc bem disse, deve até existir esse marido "primeiro-damo", mas quem achar que me conte!
Fico pensando, será que é uma coisa da nossa sociedade, será que é sinal dos nossos tempos, será, será...
Muito boa a reflexão e vamos continuar pensando e discutindo!
Bjos
Pri

Lucia Laureano disse...

Bacanerrimo seu texto!
Mostra de forma nua e crua a realidade da mulher moderna e de sucesso!
Beijos,

Fabiana Alvim disse...

Gostei demais da reflexão... mas sabe, tenho fé de que estamos caminhando para um convivência menos machista. Não sei se será algo que eu e vc veremos acontecer em vida. Mas quantos anos de machismo deliberado a sociedade já viveu, não é mesmo?!
Há de se ter fé nessa mudança! E cuidado também, né? Para que não se perca o equilíbrio e a bola não passe a pesar pro outro lado. Tá, eu sei... viajei demais... mas, né? Vale pensar.
Beijos

Cibele disse...

Se eu soubesse da sua pauta eu teria te indicado um casal de amigos. A esposa é juiza e o marido "dono de casa", mas antes de ela ser aprovada no concurso ele dava todo apoio necessario para que ela pudesse estudar...hoje, o maridao apenas administra a vida domestica!!! é linda a historia deles!!

Flá disse...

Rô, amei os posts e a matéria porque percebi que sou uma super privilegiada.

Aqui em casa, meu ritmo de trabalho é bem diferente do meu marido. Pela posição que assumo na agência, tenho horários de trabalhos pesados e viajo muito.

Já meu marido, por ser autonomo, trabalha bastante, mas tem horários infinitamente mais flexiveis,

Aqui em casa é ele quem faz o supermercado, ele quem controla os pagamentos e orientações para a empregada, ele quem chega em casa cedo pra por a Stella para dormir.

Ou seja, aqui em casa quem assume a grande carga de responsabilidades "do lar" é meu marido e o papel de executiva ficou pra mim.

Pra gente funciona super bem :)

Beijos