quinta-feira, 28 de abril de 2011

A ansiedade, a agenda do médico e a minha escolha

Faltavam poucos dias para o meu segundo parto. Muita gente acompanhou aqui meu grau de ansiedade, considerando que desde as 37 semanas de gravidez eu estava prontinha para a Rafaela nascer. Como eu tive um parto normal muito rápido na primeira gestação, que aconteceu com 39 semanas, era quase certo que Rafaela nasceria antes disso dada minha facilidade para dilatação. Eu achava, o médico dizia, minha mãe pressentia, a mudança da lua avisava.
Eis que, como nada é previsível nessa maternidade, a não ser que seus filhos vão fazer birras e vão te dar muita alegria também, o esperado não aconteceu. E cheguei às 39 semanas num alto nível de tensão.
Daí fui à consulta prevista no meu GO. Ele é um fofo, carinhosíssimo, super respeitado no meio e favorável ao parto normal. Ele sentiu minha ansiedade, mas ficou tudo combinado que eu esperaria no mínimo completar as 40 semanas e só faria intervenções se houvesse risco. A bebê estava bem grande, eu estava com líquido amniótico acima do normal e a Rafa com o cordão levemente enrolado no pescoço, conforme apontava o ultrassom, mas para o meu GO isso não era motivo de preocupação e que esses fatores não seriam impeditivos para eu ter meu parto normal. Saí dali aliviada e feliz por ter escolhido ele.
Mas... dois dias depois ele me telefona. Eram umas sete da noite. Me perguntou como eu estava e eu respondi que muito ansiosa. E foi a deixa, então, para ele me fazer uma sondagem: se eu não queria induzir o parto naquela quarta-feira com ocitocina (eu completaria 40 semanas na terça seguinte), e que isso de forma alguma atrapalharia minha opção de ter o parto normal. Ele me disse que a agenda dele estava por minha conta naquela semana (ele não aceita convênio e, por isso, consegue administrar melhor a agenda), MAS que ele tinha sido chamado para um congresso no interior de SP em cima da hora naquela semana e, se eu fizesse a indução, ele poderia se programar. Me disse que a opção era minha, e que se eu falasse que não, não haveria problema e ele cancelaria a palestra no congresso. Mas ele falou o que eu não queria ouvir.
Meu mundo desabou. Fiquei besta com aquela proposta indecente àquela altura do campeonato. Fiquei decepcionada, não soube responder nada. Pensei: "caramba, que merda, ele é igual a todos os outros médicos que marcam o parto para atender sua agenda". Chorei, chorei. Fui falar com meu marido aos prantos por estar me sentindo pressionada pelo médico a fazer a indução antes de completar as 40 semanas.
Eu já sabia que faria a analgesia durante o parto, se desse tudo certo de ser normal, porque era uma opção minha. Mas induzir antes da hora sem necessidade era uma coisa impensável pra mim. Eu não queria aquilo. Meu marido imediatamente me deu um super apoio e concordou que eu não deveria agendar a indução e isso me deu muita força.
No dia seguinte, eu tinha consulta novamente. Cheguei lá e ele sentiu minha frieza, minha chateação. Eu, que sempre fui amiga dele e desabafei tantas vezes naquele consultório, não consegui esconder minha decepção. Não toquei no assunto até que ele se manifestou.
- Roberta, sinto que você não está à vontade com essa indução. Já percebi isso ao telefone e cancelei o congresso. Como eu disse, estou por sua conta, você é a minha prioridade até o nascimento da Rafaela. Só perguntei porque, caso sua ansiedade estivesse te deixando nervosa e você quisesse induzir, isso poderia ser feito tranquilamente. Mas vamos esperar pelo menos até semana que vem quando completarão as 40 semanas.
Eu respondi que sim, que não estava à vontade e não queria induzir antes da hora especialmente em função de agenda. Que preferia realmente esperar. E assim foi.
Saí dali com o coração mais leve e certa da minha decisão. Ele não foi ao congresso e a Rafa também não nasceu naquele dia. Na sexta-feira, minha mãe chegou pra ficar comigo e foi junto à consulta. Ali comecei a sentir contrações mais fortes. Naquele sábado de manhã, dia 21 de agosto de 2010, com 39 semanas e 4 dias, fui para o hospital com 7cm de dilatação e a Rafaela nasceu duas horas depois que eu lá cheguei. O resto já contei aqui.
Continuo gostando do meu médico, apesar disso. Ele pelo menos respeitou a minha escolha.

Lembrei dessa história e resolvi contar aqui depois de ler esse post da Carol sobre cesárea.

13 comentários:

Carol disse...

nem li teu post inteiro ainda, mas ACABEI de publicar um sobre parto tb, inspirada pela Carol.

muito ótimo.

vou ler e comentar, minutinha.

Carol disse...

pronto, li. Nossa, nao sabia dessa parte da história, que medo, que medo.

Eu concordo com vc e tb nao induziria antes das 40 semanas, mas que complexo isso ficar na sua mao.

ainda bem que ele te priorizou, duvido que seria o procedimento-padrao de outros médicos...

beijao e parabens pelas escolhas!

Carol Passuello disse...

Que história, Rô!! O importante é que a Rafa nasceu do jeito que ela queria e que o médico respeitou tua decisão!!!
PS: é o Kalil?
Bjs

Coisas de mãe disse...

WOW Que historia!!!!! Confesso que fiquei bem aliviada com o final... imagino a angustia que vc passou entre o telefonema e a consulta!!!

bj

Paloma, a mãe disse...

Rô, os bebês nascem APESAR dos médicos. Mas não posso deixar de sentir uma grande decepção por eles tentarem a todo custo atrapalhar o processo natural, mesmo sabendo previamente da sua escolha pelo PN. Achei a postura dele péssima, mesmo tendo voltado atrás depois. Que bom que vc conseguiu relaxar em seguida, mas nem todas conseguem. Isso poderia desencadear uma coisa muito ruim em vc e atrapalhar todo o seu processo, entende?
Beijos

Patrícia Boudakian disse...

Nossa, Rô, também não sabia dessa parte da história. Que fueda! Na reta final tomar um susto dessas, ui!
Mas ainda bem que deu tudo certo e que ele esperou e não pressionou mais. Sorte também que você é uma mulher consciente e não se entregou à ansiedade! Muita gente por muito menos teria induzido.

Me inspirei e acho que vou escrever algo sobre isso tb!

Beijo!

Gleice disse...

Olha, você teve muita sorte com o seu médico... ao contrário de mim.

Escolhi o meu ginecologista como meu GO por ele sempre dizer que apoiava o PN, que eu teria todas as chances do mundo para ter um parto natural e por ele ser super conceituadíssimo aqui na região onde moro.

No entanto, com 37 semanas de gestação eu fiz um último ultrasom e apareceu que o meu Bruno estava com o cordão umbilical passando pelo rosto. Diante disse ele me disse que não faria PN dessa forma, só cesárea.

Isso era uma quinta-feira e ele me disse pra ir para casa pensar e na próxima terça combinar as coisas pra cesárea.

Saí do consultório desolada.

Fui jantar com meu marido, nós tínhamos algumas dúvidas e eu resolvi ligar pra ele. Sabe qual foi a resposta?
Gleice, você ligou para saber a minha opinião e a minha opinião é cesárea.

Eu chorei muito naquele dia, mas muito mesmo!

Ele é o chefe dos residentes da maternidade. Me diga qual é o residente que iria contra a vontade dele? E nessa altura do campeonato, já entrando na 38 semana de gestação onde é que eu arrumaria um médico que me apoiasse?

E outra, a minha sogra passou por uma experiência muito ruim na gravidez do meu marido por conta de cordão umbilical no pescoço (mas isso há 28 anos atrás). Tenho certeza que se eu optasse por um PN nessas condições e que se algo desse errado, que eu iria ouvir o resto da minha vida! Era bem capaz de me acharem uma péssima mãe...

Eu não me sinto menos mãe do Bruno por conta da cesárea, mas me senti traída pelo GO.
Ele sentiu na consulta de retorno a minha insatisfação e mágoa por tudo o que ocorreu.

Ele não é mais o meu médico.

É muito duro fazer o que não se quer...

Bjo.

Fabiana disse...

Caramba! Que situação estressante.
Mesmo ele tendo voltado atrás depois, achei desrespeitoso ele ter feito esta proposta para você com 39 semanas de gestação. Você aguentou firme, mas acho que a maioria das mulheres na mesma situação, se entregaria ao "apelo" dele.

Já eu, passei um tempo procurando um médico bacana e pensei que tinha encontrado um quando eu estava com 34 semanas. Mas este cara bacana me abandonou na noite que o Gu nasceu.
Super legal, né? :(
Bjos

Roberta Lippi disse...

Gleice e Fabiana, fiquei passada com as histórias de vocês.
Que isso não tenha ficado como um trauma e que as próximas gestações (será?) sejam bem diferentes!!
Beijos

Ananda Etges disse...

Roberta,

Minha história é bem parecida com a tua. Eu completei 40 semanas em uma sexta-feira e também estava super ansiosa. Falei com a médica que sugeriu induzir no sábado, pois ela teria o dia livre e poderia ficar comigo o tempo todo.

Pensei, pensei... Não queria optar pela indução, estava tudo super bem e encaminhado para um parto normal tranquilo... Tinha medo de sofrer por horar e horas com a indução ou até de acabar em uma cesárea.

Combinei então com a médica que iria esperar até terça, minha próxima consulta. Se o bebê não tivesse nascido daí sim iria direto para o hospital.

Mas não é que no domingo de noite minha bolsa estorou? Fui para o hospital e quando cheguei já estava com 7 cm de dilatação. Uma hora depois segurava meu filho nos braços.

Beijos, Ananda.

http://projetodemae.wordpress.com/

Gleice disse...

Roberta, jáa troquei de médico e está mais do que combinado que na minha próxima gravidez vou tentar PN.

Fabiana disse...

Oi Ro, não tenho trauma nenhum. E, de coração, não tenho mágoa também. Só não vou mais lá e não indico pra ninguém.

A próxima gestação vai ser diferente sim. Tenho fé que vai!
Bjos

Flávia disse...

Vou comentar super atrasado mas quero deixar meu depoimento..
Eu fui empurrada pra uma cesárea eletiva.. digo empurrada pq não resisti a nada, deixei me levarem.
Minha filha tava pélvica na US de 34 semanas e com uma volta de cordão no pescoço..o meu médico disse q isso não era problema mas que eu decidisse... disse todos os contras de uma rotação na hora do parto com o cordão no pescoço. Apavorou meu marido e minha mãe de uma forma que não tive apoio de ninguem nem mesmo pra esperar a bolsa romper e só assim entrar "na faca".
Tive medo de assumir sozinha o risco e ter alguma complicação e depois todos me acusarem. E assim marquei minha cesárea para 38 semanas e 4 dias, com medo de entrar em TP.