quinta-feira, 22 de abril de 2010

Bruxas, monstros

Lembram daquele post que eu escrevi sobre a música "Atirei o Pau no Gato" e que acabou gerando uma grande discussão em torno desse falso politicamente correto? Hoje a psicóloga Rosely Sayão publicou um ótimo artigo no caderno Folha Equilíbrio, da Folha de S. Paulo, intitulado "Bruxas e Monstros". Ela fala justamente sobre essa postura atual das famílias de fazer de tudo para evitar que os filhos sofram, e com isso procuram isolá-los de questões que fazem parte da natureza humana, como morte, medos e dor.
Vou reproduzir aqui alguns trechos interessantes do artigo que refletem exatamente o que eu penso sobre o assunto:
"Não são histórias com seus enredos e personagens que criam para a criança conflitos, medos e angústias e tampouco apresentam a ela o tema da morte. Essas são questões humanas e, ao contrário do que alguns pensam, os personagens fantásticos e as tramas dessas histórias ajudam a criança a encontrar caminhos para entender e superar, pelo menos temporariamente, o que sente.
A atitude chamada "politicamente correta" de transformar lendas infantis de modo a subtrair delas o que consideramos que possa fazer mal à criança ou sugerir o que consideramos "maus exemplos" não faz o menor sentido. Será que esquecemos que o que pode fazer mal a elas é o que está presente na realidade do mundo adulto, agora totalmente acessível a elas?
Não é hipócrita não mais cantar "Atirei um pau no gato" mas permitir que crianças assistam a campeonatos de futebol em que jogadores intencionalmente se agridem para levar vantagem? Não é curioso evitar que elas ouçam histórias de bruxas que perseguem as crianças, mas permitir que assistam a noticiários que mencionam assassinatos e abusos sexuais de crianças?
Que as bruxas, os duendes e os monstros, as madrastas malvadas e as crianças órfãs habitem o imaginário de nossas crianças é tudo o que podemos desejar. É que nesse mundo, diferentemente do mudo adulto, elas contam com as fadas e suas varinhas de condão, com os príncipes que salvam as princesas do sono eterno e, principalmente com um final em que o bem vence o mal."

PS. O artigo na íntegra já está disponível no blog da Rosely Sayão. Aliás, ela costuma escrever artigos ótimos nessa área de educação, quem ainda não conhece vale a pena.

7 comentários:

Nine disse...

Adorei! Também sou totalmente contra essa história de mudar as histórias infantis, as músicas e deletar as bruxas, etc... Minha filha tem um DVD do Cocoricó e nele tem uma música do Buraco, que fala do touro preto do bafo quente que vai pegar se passar em cima do buraco! Ela assiste e dá para notar que fica apreensiva, mas no final vem a mensagem "é brincadeira, é faz de conta". Ah se todos os problemas do mundo que ela vai enfrentar também fossem de brincadeira, né? Abraços!

Lia disse...

Oh, yeah!
Lembro que quando eu era pequena eu ficava super triste quando meu pai cantava: "Faz três noites que eu não durmo ô-lá-lá/só pensando em meu galinho ô-lá-lá/ coitadinho ô-lá-lá/ do bichinho ô-lá-lá/ que eu perdi lá no jardim"
Mas é assim que a gente aprende a lidar com as perdas, né?

Paloma disse...

Lúcida Rosely Sayão. Adoro o que ela escreve. Muito bom! bjo
Paloma e Isa

Paloma, a mãe disse...

Adoro a Rosely Sayão, leio toda semana. E concordo com tudo o que ela disse.
Quando a Ciça tem medo de monstro, lobo mau ou bruxa, a gente não nega a existência deles, a gente só mostra que é possível combatê-los.
Mas eu sei que eles são importantes para o imaginário das crianças. E que a violência real, o acesso a conteúdos de adolescentes e adultos, os telejornais (e programas de TV em geral) são muito mais nocivos.
Beijos

Chris Ferreira disse...

OI Roberta,
excelente essa postagem.
Vou ler o texto na íntegra no blog da Rosely Saião. Eu sempre a acompanho mas hoje não tinha visto ainda.

Letícia Volponi disse...

Ro, mais uma vez, assino embaixo. Essa semana mesmo dicuti o assunto com uma amiga que acha certo o modo politicamente correto de imaginar. Quase brigamos.

mariana disse...

oi, adorei o blog. parabéns, ja até linkei no meu. bj, mariana