quarta-feira, 10 de março de 2010

Trabalhar em casa com criança por perto

Alguém me perguntou (juro que tentei procurar agora quem foi, mas não achei, me desculpe!!) , no fim do ano, como era a experiência de trabalhar em casa com criança por perto. Demorei a escrever esse post porque sabia que seria longo, mas vamos lá.
Eu sou jornalista e, antes de a Luísa nascer, eu estava trabalhando com comunicação corporativa. E ritmo de empresa é bem diferente do ritmo de redação, ao qual eu estava acostumada. Pressão é muito maior, horários mais puxados, etc. Como meu marido poderia segurar a onda das finanças da casa, conversamos muito e eu decidi dar um tempo àquela rotina pesada. Então, quando a Luísa nasceu, resolvi pedir demissão do trabalho e montar um escritório em casa. Lógico que não foi uma decisão fácil, porque sempre fui uma mulher muito independente e não saberia o que aquela decisão iria me custar exatamente. Queria ter mais flexibilidade, mas não me via sendo dependente totalmente do meu marido. Mas, como ele tem um ritmo muuuuito puxado no trabalho, inclusive com muitas viagens, achamos que seria melhor que um dos dois tivesse um pouco mais de tempo, pelo menos nos dois primeiros anos da Luísa. Como minha profissão permite que eu continue trabalhando nesse esquema, resolvi arriscar. Assim teria mais tempo porém não ficaria sem trabalhar.
Confesso que no começo a adaptação não foi fácil, especialmente porque eu sentia falta de conversar, interagir com as pessoas. Eu só interagia com a Luísa, com a babá e com a empregada. Passava o dia em frente ao computador (e sem o help desk da empresa para me socorrer em momentos de panes. Gente, como faz falta!!). Mas depois fui me acostumando ao ritmo, marcando alguns almoços fora, saindo de vez em quando de casa. E, sob esse aspecto, hoje lido muito bem.
Quanto à presença da Luísa, cada fase da criança causa um impacto diferente. Quando ela era menor (até 1 ano e meio) e exigia presença costante ao lado dela, era mais complicado. Especialmente quando eu tomava cano da babá e tinha que ficar sozinha com ela. Era muito difícil trabalhar e fazer minhas entrevistas por telefone. Eu fazia quando ela estava dormindo, mas nem sempre o entrevistado resolve retornar a ligação no momento que você gostaria. Ter uma babá ou empregada que fique com a criança é fundamental pra conseguir trabalhar. Inclusive para poder sair quando tem reuniões fora. Eu fiz um projeto de consultoria, por exemplo, em que passava parte do dia fora durante uns três meses. Mas podia voltar antes do rodízio, olha que beleza.
Depois foi melhorando. Mas já passei perrengues. A Letícia até presenciou uma vez, porque ela era assessora de imprensa da minha fonte. Eu estava entrevistando um presidente de uma empresa super importante. E, na época, eu tinha uma babá quase retardada em casa, mais infantil que a Luísa. A bocó se trancava no quarto dela pra tirar a sobrancelha e largava a Luísa pela casa. E não tinha porta no meu escritório. Sei que Luísa apareceu no meio da entrevista. Ela grudou na minha perna e eu, para que ela não chorasse, fiquei em pé e comecei a balançar a perna. Só que, ao mesmo tempo, eu falava ao telefone e anotava no caderno tudo o que o tal presidente falava. E não podia gritar pra imbecil da babá vir buscar a Luísa. Sei que foi terrível, quase matei a sujeita.
Outras muitas vezes a Luísa apareceu gritando ou chorou enquanto eu fazia entrevistas. Vi que era melhor ser sincera com os entrevistados e, quer saber, dane-se o que eles pensam. O importante é que o resultado (a matéria) seja bom. Então, se tem um bebê resmungando do outro lado da linha, paciência. Algumas pessoas acham fofo, perguntam mais sobre a Luísa, e o papo até se estende. Outros dão um risinho sem-graça e continuam a falar. E assim foi (e ainda é).
Eu ainda acho que os prós são bem maiores do que os contras. Tenho a minha flexibilidade de horários, posso tirar os feriados junto com o meu marido (já que ele nunca tem um mês todo de férias) e fico sempre perto da Luísa.
Mas agora ela já me respeita mais. Primeiro, porque ela já entende melhor as coisas. Segundo, meu escritório agora tem porta (êeeeeee)e só dá para ouvir os choros de longe. E eu a ensinei a bater na porta e perguntar se pode entrar. Depois, porque a babá é muito mais esperta e competente e some com a Luísa quando eu estou fazendo entrevistas.
Ainda assim, estas são apenas algumas das frases que ouço o dia inteiro:
- Mamãe, binca comigo só um pouquinho?
- Mamãe, pode entá?
Vou esperar pra ver como será com duas crianças em casa. Se vou dar conta do mesmo jeito. Mas aí será outra fase, outros tempos, e eu decido mais pra frente se vale a pena voltar ao mercado convencional ou de repente continuar trabalhando como autônoma só que num escritório fora de casa. Até lá muitas águas ainda vão rolar...

23 comentários:

Letícia Volponi disse...

Menina, lembro muito dessa entrevista. O cara falando de um tema super sério, era um cenário de início de crise e eu ouvia bem baixinho a voz da Luisa. Não lembro se ele notou, mas é um cara bem gente fina e se percebeu deve ter achado engraçadinho pq tem uma filha adolescente e é vidrado na garota. Eu não tenho disciplina para trabalhar em casa... nenhuma

Paloma, a mãe disse...

Rô, morri de rir (desculpa), porque, mesmo sem trabalhar em casa, já fiz uns trabalhos como frila em casa e vivi situações parecidas. De fazer entrevsitas em posições engraçadas, de ela entrar no quarto gritando e coisas assim. Mas, ainda assim, quero muito um dia conseguir trabalhar em casa mesmo (sem trabalhar fora), vamos ver se consigo.
Beijos

Sabrina, mãe de Lina disse...

Roberta,
fui eu quem escreveu pedindo. tava desesperada pq preciso terminar de escrever a tese de doutorado, tinha demitido a babá e não dava para me concentrar.
aprendi que cada um tem um ritmo, cada época eh diferente. agora, a babá da Lina (que vai embora thanks God sexta) faz mais barulho e arruaça que ela. ela já se distrai mais sem mim. e frequentemente fujo para as bibliotecas nas proximidades. mas eh um jogo de cintura lascado!
um bj

Priscila disse...

Oi, Roberta.
Esse é um sonho de consumo. Trabalhar de casa. Pra mim, é impossível, infelizmente.
Bjs.

Comer para Crescer disse...

Oi, Roberta.
Vivo essa mesma situação que vc. Decidi trabalhar apenas em casa quando meus dois filhos já não tinham fralda, mas ainda não eram alfabetizados e só tinham dentes de leite na boca.
E já passei por muitos perrengues como o seu. Ontem mesmo atendi um telefonema (alguém querendo passar um frila) no instante seguinte o Miguel gritou, berrou, debaixo do chuveiro que a água estava muito quente. Não tive dúvida: "Vc pode aguardo um minutinho?" A resposta foi sim. Corri no banheiro, acudi o pequeno e voltei ao telefone com a voz mais calma do mundo.
Os horários de grande produção são aqueles em que os meninos estão na escola e quando dormem (eles vão para cama cedo!) e aos finais de semana com o pai por perto.
E ter uma porta faz toda a diferença. Já fiz entrevistas com os dois brigando, aos berros, com muito choro. Fechei a porta, fiz a voz mais calma do mundo de novo e deixei o pau rolar (tenho uma empregada que se faz de sonsa nesses momentos mesmo eu tendo avisá-la que entraria numa entrevista e que ela precisaria administrar os dois. Mas ela é uma excelente cozinheira, então, fica elas por elas).
Tem de ter mesmo um jogo de cintura enorme. Mas sempre aviso os entrevistados que tenho home office para já saberem que os gritos infantis fazem parte do cotidiano doméstico.
Mas para a Sabrina, de fato, deve ser um perrengue. Sei disso porque meu marido está estudando em casa para o doutorado. Ele só consegue estudar quando os meninos estão na escola. Quando chegam para o almoço a casa é invadida por aquela balbúrdia deliciosa que só criança faz e daí é impossível ter concentração. Ele tb foge para bibliotecas ou eu saio com os meninos e ele fica um final de semana inteiro enterrado nos livros. Nessas horas, a parceria com o marido/esposa é fundamental.
beijos
Patricia

Dany disse...

Meu sonho!!!
Queria muito ter horário flexível...
Apesar de Caio ter 6 anos, sinto falta dessa flexibilidade.
Aproveite muito!!!

Tathyana disse...

Ah! Meu sonho!!! Mas como é que psicóloga clínica atende em casa??? Super complicado e que bom que conseguiu ficar mais perto da Luisa e agora da Rafaela. Bjsss

mimi disse...

Adorei o post e acho que te entendo bem.. apesar de não estar trabalhando, a vida em casa sem uma babá ou uma empregada e com um bebe de 13 meses .. só fazendo muita "ginastica" para conseguir ter algum tempo para vc ;-) Espero conseguir voltar logo ao trabalho, mas tenho clarissimo que vida de escritorio das 9 as 9 (como eu fazia antes) eu TO FORA!!!..
A boa noticia é que aqui na Espanha existe e se pratica muito a tal da meia jornada ;-)
bjs
mimi & Lucas
(ps. por exemplo agora mesmo tenho ele no meu colo enquanto digito..rs)

Sarah disse...

Muito legal o post Roberta, me identifiquei bastante. Nos últimos anos eu estava trabalhando em casa (sou tradutora) e já tinha me acostumado com a flexibilidade de horários. Porém, quando o Bento nasceu, foi bem complicado conciliar as coisas. Bebês exigem bastante no começo, e meu trabalho também exige concentração e muitas horas no computador. Não tenho empregada, o que tornava as coisas mais complicadas. Só conseguia fazer um trabalho maior quando minha mãe podia ficar com o Bento para me ajudar.
Aí recebi uma proposta e voltei a trabalhar fora. Bento entrou na escolinha. Claro que sinto falta da facilidade de trabalhar em casa, mas ao menos até ele crescer um pouco terei que continuar na rotina atual. Quem sabe futuramente não volto ao meu home office...
um beijo!

Patricia disse...

Oi Roberta,
o escritório onde trabalho até dá condições para a gente trabalhar em casa mas, sério, com a pequena é impossível. Quando não tem jeito, tenho que esperar ela dormir, ou seja, trabalhar de madrugada.
Gostei de saber que depois de um ano e meio melhora. Será?
Estamos naquela fase em que ela parece minha sombra, não me larga nem para eu ir fazer xixi....hehe
bjs

Micheli Ribas disse...

Entendo bem o que é isso.
Também trabalho em casa, mas, como não tenho babá, nem empregada, nem diarista, a correria é terrível. Quando não foi mais possível conciliar, coloquei-a na escola meio período. Para mim foi a solução. Mas não tenho muito tempo para trabalhar, então tive de diminuir bem o ritmo. E hoje ela adora a escolinha. Fico com menos grana, mas vale muito a pena estar com ela a maior parte do tempo. E a casa vou me virando, principalmente fim de semana ou quando ela dorme, fazer o quê.
Um beijo.

Micheli Ribas disse...

Entendo bem o que é isso.
Também trabalho em casa, mas, como não tenho babá, nem empregada, nem diarista, a correria é terrível. Quando não foi mais possível conciliar, coloquei-a na escola meio período. Para mim foi a solução. Mas não tenho muito tempo para trabalhar, então tive de diminuir bem o ritmo. E hoje ela adora a escolinha. Fico com menos grana, mas vale muito a pena estar com ela a maior parte do tempo. E a casa vou me virando, principalmente fim de semana ou quando ela dorme, fazer o quê.
Um beijo.

Roberta disse...

Micheli, você é uma heroína!

Flavia Bernardo disse...

Olá!
Conheci seu blog ontem através do blog da Marina do Coisas que me inspiram. E adorei! Já até linkei no meu.

Trabalhar em casa exige muita disciplina que eu confesso, não tenho!!! Mas deve ser tudo de bom ter seus próprios horários, flexibilizar pra estar mais perto do filhote, uma maravilha!

bjs
Flavia.

Fernanda disse...

Comigo foi a mesma coisa, trabalhava em empresa, e quando meu filho fez 11 meses decidi sair e fazer frila de casa. Sou estilista, faço frilas de estilo pra algumas marcas e acabei montando um negócio: criei uma marca de camisetas para mãe e filho www.mammamini.blogspot.com o fato é que trabalho bastante em casa e é super difícil pras pessoas que estão ao redor (filhos, babá, empregada) entenderem que vc está lá mas não está disponível naquele momento. Sem falar que é preciso uma organização e disciplina do além para focar e não priorizar tudo dos filhos e da casa antes de trabalhar. Eu ainda estou me adaptando e já faz 1 ano, acho que o ideal é ficar meio período num escritório e meio período em casa, sinto falta de interagir com os colegas mas amo poder estar perto do meu filho sempre, não pegar trânsito e aproveitar o luxo de ver ele crescer de perto. bjs

Marina disse...

Roberta, esse post veio muuuito a calhar! Estou pensando seriamente em trabalhar em casa e colocando na balança os prós e contras!
Pelo visto é fundamental ter ajuda, né?
Ah, e da próxima vez que uma babá largar a pequena pra fazer unha, vc me chama que eu te ajudo a dar um pito nela! Arg!
beijocas

Mãe do Pitoco disse...

Oi, Roberta! Como vc, tb trabalho em casa. Foi uma opção minha por vários motivos. O mais importante deles foi o que vc falou - mais tempo com o pequeno, horários flexíveis, oportunidade de acompanhar de perto o crescimento dele etc. Mas só agora, com ele na escolinha em meio período, pude colocar a mão na massa porque antes era impossível. E quando ele está em casa, nem pensar em chegar perto do computador. Ele enlouquece e me enlouquece junto. Por enquanto, como o fluxo de trabalho não está muito intenso, o horário dele na escolinha apenas pela manhã está ótimo, mas se aumentar muito a demanda e eu sentir que é necessário para as finanças daqui de casa, aumento em uma ou duas horas o tempo na escolinha. Ele se diverte com os amiguinhos, aprende um monte de coisas boas e mamãe consegue trabalhar sossegada, sem se preocupar com o que ele deve estar aprontando.
Adorei o post e adorei saber que temos muito em comum.

Bjocas

piscardeolhos disse...

Ro, querida, te entendo completamente. Como te entendo!
Minha solução foi escola: durante todo o tempo que trabalho ele fica na escola: se tenho menos a fazer, levo ele mais tarde, busco mais cedo. Mas se dia está complicado ele fica mais tempo na escolinha (optei por pagar integral ainda que o deixe menos tempo).
No meu caso essa foi a solução unica cabivel, pois tenho uma patologia que me faz não conseguir aceitar baba. DEus que me perdoe, detesto. Tentei, juro que tentei. Durou um mês e meio. Minha mãe brinca que eu devo ter tomado um tapa escondido de alguma baba, hehehe.
Diante isso, só me restou essa opção, a escola. E eu adoro, ele também.
Quando ele chega em casa é adeus lap top e acabou trabalho. Não tem jeito.
beijos e sorte, querida!

Lia disse...

Eu, se fosse você, continuava trabalhando em casa e despachava as crianças pra escolinha ;)
Deixar de perder tempo no trânsito não tem preço...

Patrícia Boudakian disse...

Oi, Rô, eu tbm trabalho em casa... e adoro. Eu e o maridão optamos por isso desde o início, quando voltamos de uma estada na Espanha. O fato de sermos jornalistas ajuda muito tb. Sempre me questiono se é o melhor, mas como vc mesma disse, os prós vão muito além... estamos planejando um baby e tenho certeza de que será muito bom. Com a ajuda de uma babá, é claro. Eu estava grávida e acabei perdendo o baby, estou em repouso e está sendo ótimo poder trabalhar um tiquinho de casa, ou melhor, do home office, que montei na minha cama por enquanto. Em um momento complicado como esse, seria ruim ter de me afastar do mundo...

beijo.

Marcia Lima Gomes disse...

Acabei de mandar um comentário para vc antes de ler esse post que já responde parte das perguntas. :o) Eu também sou jornalista, mas moro nos EUA. Tenho muita insegurança em relação ao meu texto em inglês que, como me disseram certa vez, tem "sotaque". Então, nunca me arrisquei no mercado de trabalho dentro da minha área profissional.

Sabrina, mãe de Lina disse...

Ai, Roberta
acho que como boa canceriana tenho problema com encarar as mudanças, e depois de Lina com 1 ano de vida eh que começo a entender melhor esta nova realidade. No começo eu sofria de saudades das tardes na biblioteca da usp. Qd grávida, ficava lá até umas 9hrs da noite, escrevendo, pesquisando. Agora encarei o fato de que a vida mudou e ver a Lina crescer pertinho de mim eh um privilégio. Adorei o post. bjs
ps. te linkei lá no bloguinho da Lina, ok?

Trabalhar em casa disse...
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