terça-feira, 4 de agosto de 2009

Minha história de amamentação


Está rolando esta semana a campanha sobre aleitamento materno e muitas mães blogueiras estão divulgando histórias sobre amamentação (veja mais aqui e ). Resolvi aderir à campanha contando a minha história. Vou falar como foi de verdade, porque acho que não ajuda em nada contar só a parte boa.
Eu fui bem informada sobre amamentação durante a gravidez. Fiz cursinho para grávidas e foi muito legal: além dos benefícios do aleitamento materno, aprendi por exemplo que o bebê tem que pegar a aréola toda do peito e não somente o bico. Descobri também que não existe a história de leite fraco e outras informações importantes. Mas eu achava que tiraria de letra a amamentação e que meu maior problema seria o parto. No final das contas, aconteceu o contrário.
Como eu já contei aqui, meu parto foi muito tranquilo, sem dores. Logo que a Luísa nasceu, ela já veio pro meu peito e teve o primeiro contato com o colostro. Nos dois dias em que fiquei na maternidade, quando só tinha colostro, correu tudo bem. As enfermeiras me ajudavam com a posição e a Luísa pegava direitinho a mama. Era estranho, porque tudo era muito novo, mas uma sensação gostosa. Para quem não sabe, colostro é o primeiro alimento produzido pela mãe dias após o nascimento e, apesar de produzido em menor quantidade (em torno de 30 ml por dia) que o leite maduro, é suficiente para o recém-nascido. É um líquido amarelo bem grossinho e que contém anticorpos e uma série de propriedades muito importantes para o bebê.
O problema foi na tal "descida do leite", que acontece a partir de 72 horas após o parto. Esse foi o problema para o qual eu não estava preparada. E o pior: já estava em casa, não tinha mais as enfermeiras por perto. Esse momento é quando o peito enche de leite pela primeira vez. Só que a quantidade que desce é maior do que o fluxo normal nas semanas seguintes. Também é nesse momento que acontece um movimento forte de encolhimento do útero, provocado justamente pela amamentação.
Eu sentia tanta cólica quando a Luísa mamava, mas tanta cólica, que cheguei a chorar. Senti muito mais dores ali do que no parto, olha que engraçado. Isso não dura muito tempo, mas o problema é que a gente amamenta de 3 em 3 horas, né...
Além disso, o meu peito encheu muito, muito, muito. E aí a Luísa não conseguia mais pegar um dos lados. Ela só mamava no peito direito, porque o esquerdo ficou duro e liso e ela não conseguia abocanhar. Escorregava. E ali faltou ajuda. Eu não fiz a drenagem (com as mãos, mesmo) que deveria ter feito para soltar o leite e amaciar o peito. Foi enchendo, enchendo. A sorte é que eu fiquei muito calma, e acho que isso ajudou demais. Eu me trancava sozinha no quarto para amamentar e as únicas pessoas que eu queria ali eram a minha mãe e o Luiz. Eu não desistia e continuava tentando. Fui levar a Luísa na pediatra e a mulher chegou toda cheia falando que ia resolver o meu problema. Ela pegava o meu peito de todo jeito e enfiava na boca da Luísa com zero de delicadeza. E nada. Ela fazia tudo o que eu já tinha tentado, só que com muito menos cuidado, e nada. Aí a pediatra gente fina me mandou tomar banho de água bem quente (o grande erro, porque a água quente amolece na hora mas estimula ainda mais a produção de leite) e a passar umas pomadas no peito e colocar papel filme em cima. Vejam só o que essa mulher me fez passar. Daí eu colocava a tal pomada e ficava mais liso ainda o peito, e aí que a Luísa não conseguia pegar.
No dia seguinte, tive consulta com o meu médico obstetra e ele me disse que por pouco eu não tive uma mastite, que é uma inflamação séria das glândulas mamárias. Então ele ficou ali horas "ordenhando" meu peito. Esvaziou, esvaziou. E eu chorava, chorava. Aquele dia foi muito difícil pra mim. Um desgaste emocional imenso. Mas eu me mantive firme no propósito, em nenhum momento sequer passou pela minha cabeça desistir de amamentar. Sei que saí melhor dali e a Luísa conseguiu pegar um pouco do peito depois.
Mas isso tudo ocasionou outro problema. Aquela "ordenha" acabou acelerando o movimento de contração do meu útero e à noite, em casa, eu tive uma hemorragia horrível. Foi assustador. Mas eu não me sentia fraca, só assustava aquela quantidade de sangue. O Luiz, coitado, quase teve um treco, nunca o vi tão nervoso. Deixamos a Luísa em casa com a minha mãe e fomos pro hospital. Depois de algumas horas descobrimos que meu útero não havia se contraído na mesma velocidade que deveria ter contraído (coisa rara de acontecer), e formou-se uma espécie de rolha, ou tampão, na saída do útero. Ali o sangue, que deveria estar saindo como uma menstruação, foi se represando. Quando o médico fez aquela ordenha no meu peito (é assim mesmo que eles chamam) e estimulou a contração, o tampão se rompeu e o sangue vivo desceu de uma vez. Por isso eu não passei mal. Não era sangue das veias que estava saindo ali.
Eu procurei me manter calma o tempo todo, mas o grande desespero seria dormir no hospital e ter que pedir para a minha mãe dar leite em pó (NAN) pra Luísa em casa. Com todo aquele leite sobrando no meu peito. Mas mandei comprar o NAN. Porque não queria levar a Luísa, recém-nascida, para um ambiente de pronto-socorro, cheio de gente doente.
Eis que apareceu uma enfermeira no meu quarto. Um anjo, sabe aqueles? Na verdade, o quarto em que eu estava internada não ficava no pronto-socorro do São Luiz, e sim já na ala da maternidade, e essa enfermeira disse que a Luísa poderia sim ir pra lá ficar comigo. Nem sei descrever o que foi aquele momento. Luiz saiu voando pra buscar a Luísa e trazer pra mim. Quando ele chegou com o meu "pacotinho" no quarto, abraçou tanto a enfermeira que começamos os dois a chorar. E ali aquela enfermeira querida ficou. Passou horas e horas no meu quarto tirando os nódulos do meu peito para que a Luísa conseguisse mamar direito.
No dia seguinte, fomos embora pra casa. Tentaram dizer que ela estava um pouco amarelinha, com começo de icterícia, mas era muito pouco e nós resolvemos ir embora. Não queria ficar mais nenhum dia no hospital. De fato a icterícia não evoluiu e a Luísa passou a mamar nos dois seios normalmente.
O único fator chato depois disso é que tive uma pequena rachadura em um dos bicos, o que também arde bastante quando o bebê suga. O que ajudou a cicatrizar foi a pomada Lansinoh e o próprio leite do peito. Acho que em três dias já não doía mais.
Mas posso dizer? Eu não reclamava de nada. Essa questão era uma parte menor dentro de tudo o que eu estava vivendo. Fui encarando cada dia com todas as minhas forças e pensamento positivo.
Depois dessa primeira semana (sim, tudo isso aconteceu em uma semana), tudo mudou. E a amamentação virou um grande prazer. Momentos de intimidade e cumplicidade maravilhosos que duraram 9 meses. E me esqueci de tudo o que passei pra chegar até ali. Tudo mesmo. Tanto que muita gente nem sabe que eu voltei para o hospital naquela semana. Mas achei que valeria contar aqui, porque outras mulheres também podem ter esse mesmo tipo de problema e de alguma forma espero que minha história possa ajudar. As campanhas que só falam da parte boa fazem com que muitas mães se sintam incompetentes ou despreparadas quando enfrentam dificuldades.
Tem algumas outras dicas nesse outro post sobre o assunto.

8 comentários:

Flavia disse...

Roberta!

Parabéns pelo lindo relato. Realmente amamentar nem sempre é só colocar o bebê no peito e pousar pra foto. Eu acho sinceramente que a tua atitute positiva e calma diante de tudo isso, foi importante pra vc continuar amamentando e desfrutando dos momentos deliciosos de intimidade e cumplicidade com a tua pequena.

Com certeza divulgar histórias como a tua, ajuda a que outras mamães busquem recursos para solucionar os problemas iniciais e continuarem amamentando. Não porque eu e você amamentamos nossos filhos e nem porque dar o peito seja um termometro de mais ou menos mãe. E sim porque o leite materno é o melhor alimento para o bebê, amamentar pode ser muito prazeroso para os dois e a maioria dos problemas de amamentação podem ser solucionados, pena que nem sempre os anjos aparecem no momento exato.


Beijo


ps.: desculpa o comment tão gde. Nao consigo evitar. risos

Lia disse...

Com certeza vale a pena compartilhar essas histórias. Já estou fazendo coleção de informações pra me ajudarem em janeiro.

Roberta disse...

Obrigada, Flavia. A ideia não é assustar as pessoas, mas mostrar a outras mulheres que elas não serão as únicas a ter dificuldades com a amamentação. Não são todas, mas a maioria das mulheres que eu conheço teve algum tipo de dificuldade com isso nas primeiras semanas.
E Lia, com certeza acompanhando essas histórias você estará ainda mais forte pra encarar qualquer dificuldade que venha a ter. Boa sorte e conte comigo para o que precisar!

Paloma, a mãe disse...

Adorei, Roberta, que vc tenha contado isso aqui. As pessoas precisam ver que nem tudo é cor-de-rosa na maternidade e estar preparadas para quando algo dá errado. Se não der, sai no lucro: pelo menos tem informação para ajudar a quem precisa.

Tathy disse...

Uau Roberta, que relato!!! Adorei. E concordo com vc, de vale contar apenas a parte boa da história??? A dor, o medo, a angústia e a superação ninguém conta nas campanhas de amamentação.

Beijosss nas duas.

Patricia disse...

Obrigada por escrever uma estória de verdade ... eu também tive problemas no começo da amamentação e foi muito difícil, muito porque não entendia o que estava acontecendo já que a amamentação deveria ser aquela coisa incrível que sempre nos falam, ninguém nos diz que podem acontecer diversos problemas, meu pequeno chorava muito porque sentia fome, não abria a boca toda até abocanhar todo o peito e por isso não mamava ... e pensava que ele estava mamando ... e o pequeno chorava de fome (imagina como é um choro de fome ... devastador !!!), perdeu quilos e depois de muito desespero fomos a um lugar muito legal que tem aqui no Rio de Janeiro que se chama Banco de Leite, lá as enfermeiras ensinam tudo pra gente (como as pediatras nem sonham em fazer), ficam o tempo que for necessário com calma e delicadeza. Obrigada por nos contar uma estória de verdade !!!

Thaís Rosa disse...

Roberta, obrigada por compartilhar sua experiência, é realmente muito importante que as pessoas saibam que nem tudo são flores na amamentação, pois sóassim teremos mais apoio nesse momento tão delicado que é o início da amamentação.
Acima de tudo, parabéns pela segurança e persistência, dignas de uma mãe guerreira!
Linkei teu relato lá no aprendiz de mãe, tá?
beijo!
thaís

piscardeolhos disse...

Roberta, parabéns pelo lindo relato!
Quero te dizer que a parte do anjo me fez chorar, acredita?
Vitoriosos, vocês.
Beijos, Roberta